27 Outubro 2021, 22:57

Os amigos improváveis que matam a fome e aquecem corações

© Amândia Queirós
Susana Faria AdministratorKeymaster

A pandemia de Covid-19 agravou a pobreza e a fome um pouco por todo o Mundo. Portugal não foi exceção. E, nestes tempos atípicos e difíceis, foram várias as associações, e os grupos de amigos, que se juntaram para também combaterem este flagelo levando aos que mais precisam alimentos e conforto. O Mundo Atual foi ver de perto o trabalho da Associação «Amigos Improváveis na Rua», que há cerca de um ano e meio, junta todas as quintas-feiras à noite um grupo de voluntários no Largo da Batalha, no Porto, para servir refeições, ouvir histórias e aconchegar corações.

A pandemia de Covid-19 virou o mundo do avesso. Restrições, testes, máscaras, vacinas, mortes, infetados, confinamento, foram algumas das palavras que passaram a fazer parte do quotidiano de cada um de nós. E por detrás de todas as palavras, calculam-se ainda os estragos que a pandemia continua a causar na vida de milhões de pessoas por todo o Mundo.
O novo coronavírus criou um cenário devastador, principalmente nos países que já sofriam com problemas associados à pobreza e à desigualdade.
A fome, um dos maiores e mais graves flagelos do mundo, bateu novos recordes em 2020.
De acordo com dados das Nações Unidas o agravamento é “dramático” já que quase um décimo da população mundial sofre de subnutrição.

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Entre 720 milhões e 811 milhões de pessoas no mundo foram vítimas deste flagelo, estima o relatório anual «O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo» (conhecido pela designação SOFI).
Em Portugal, a situação também se agravou. Segundo dados do Instituto da Segurança Social (ISS), entre março e setembro de 2020, cerca de 32 mil pessoas pediram o Rendimento Social de Inserção (RSI).
Perante o agravamento da situação económica do País e de muitas famílias, foram várias as associações criadas para ajudar aqueles que viram, de um dia para o outro, a sua vida mudar.
Foi assim que nasceu a «Amigos Improváveis na Rua» que o Mundo Atual foi conhecer melhor e acompanhar na cidade do Porto.

Largo da Batalha é o ponto de encontro

Antes das 20 horas, quando o sol se põe e o som das gaivotas deixa de ser tão intenso, as crianças enchem o Largo da Batalha, mesmo em frente à igreja de Santo Ildefonso, no coração da cidade do Porto, com a alegria que é capaz de chamar à atenção dos mais distraídos que por ali passam.

As bancadas de madeira, que outrora dão lugar à conhecida e habitual Feira de Artesanato da Batalha, transformam-se num espaço de partilha e acolhem os inúmeros sacos com comida e bens pessoais que conhecidos e desconhecidos ali depositam, antes da chegada daqueles que já são, para muitos, os únicos amigos.

A fome, um dos maiores e mais graves flagelos do mundo, bateu novos recordes em 2020.

Todas as quintas-feiras à noite, o emblemático Largo transforma-se num local onde ninguém é mais importante do que o parceiro do lado. Ali não há espaço para julgamentos, apenas para compreensão e entreajuda.

A chegada da carrinha dos «Amigos Improváveis da Rua», que trazem alimentos quentes, é aguardada com tranquilidade, apesar de se ouvirem «resmungos» na reivindicação por um lugar na fila.

E, num piscar de olhos, anoiteceu. São 21 horas, os responsáveis e voluntários da «Amigos Improváveis na Rua», começam a chegar e é notória a alegria com que são recebidos pelas dezenas de pessoas que os esperam, nas escadas.

“Estou sempre à espera de quinta-feira para poder ajudar”

Dulce Paiva faz parte do grupo de voluntários que se juntou a esta causa. Há mais de quatro meses que colabora na confeção de refeições e todas as quintas-feiras se junta aos companheiros para mais uma noite de solidariedade.
“Durante o confinamento achei que devíamos fazer alguma coisa por quem estava à nossa volta e dada a situação também em que me encontrava, dei mais valor a estes atos. Estou sempre à espera de quinta-feira para poder ajudar”, revelou Dulce.
“A experiência tem sido muito boa. É uma sensação de gratidão e de dever cumprido podermos ajudar o próximo”, salienta a voluntária. Dulce Paiva faz parte da associação há relativamente pouco tempo, mas já tem algumas histórias que a marcaram: “Recebemos uma senhora de Coimbra que veio ver os filhos e foi rejeitada pelos dois. Nenhum deles a recebeu. A senhora não tinha forma como ir para casa, não tinha dinheiro, nem onde passar a noite. Esse foi um dos episódios que me tocou mais, porque era uma pessoa já com alguma idade e chocou-me muito o facto de os filhos não lhe abrirem a porta”. A voluntária acrescenta que os «Amigos Improváveis na Rua» pagaram o hotel para pernoitar e, no dia seguinte, uma das voluntárias levou-a à central de transportes. “Nunca falhamos à quinta-feira com as pessoas que estão à nossa espera. Conseguimos sempre conciliar a nossa vida pessoal, porque há uma vontade muito forte”, terminou.

Isabel, mais conhecida por Kika, é aquela que por quem todos chamam assim que chega à Igreja de Santo Ildefonso e também a quem todos recorrem quando precisam de apoio. A mentora desta iniciativa, explica ao Mundo Atual, que “é sempre assim todas as quintas-feiras” e que cada vez têm mais pessoas a recorrer a este auxílio.

A Associação «Amigos Improváveis», criada no início da pandemia pelo casal, Isabel Lopes e José Castilho, começou com a ideia de “entregar cestas básicas com bens de primeira necessidade, a partir de casa”. Mas as necessidades e o número de pessoas a precisar de ajuda começaram a aumentar e Isabel, que já tinha uma vasta experiência em voluntariado, decidiu ir para a rua com mais quatro pessoas, auxiliar quem tudo perdeu.

“Vi que havia maior necessidade na rua e vim com pessoas da família ajudar os mais desfavorecidos e sem-abrigo que, com a pandemia, viram-se aflitos e com grandes dificuldades para se alimentar. Tentaram convencer-me a fazer esta iniciativa só de duas em duas semanas, mas era impossível… tínhamos muita gente a pedir ajuda”, conta-nos Isabel Castilho, enquanto os voluntários se preparavam para servir as refeições quentes.

“Tentaram convencer-me a fazer esta iniciativa só de duas em duas semanas, mas era impossível…tínhamos muita gente a pedir ajuda”

Todas as quintas-feiras à noite, a associação distribui alimentos, cestas básicas com bens de primeira necessidade e roupas.

Associação já tirou muita gente da rua

Inicialmente, a associação, que começou por ser um projeto de voluntariado, esteve durante quase um ano junto ao Teatro de S. João fazendo apenas a entrega dos «kits» com comida e roupas. Mas o número de pessoas em dificuldades tornava-se cada vez maior e o casal percebeu que “não bastava apenas entregar «kits»” com comida, “era necessária uma ajuda maior para suprimir todas as necessidades das pessoas” que todas semanas recorriam até eles.

Foi aí que surgiu a ideia e ocorreu a mudança de espaço para a distribuição de refeições quentes, como fazem outras associações na mesma cidade.

O principal objetivo da associação é “tirar pessoas das ruas” e, para isso, além da distribuição dos bens alimentares, os «Amigos Improváveis» asseguram o pagamento de quartos ou de outras despesas como luz e água aos mais desfavorecidos.

“Já tiramos muitas pessoas das ruas e, felizmente, hoje estão a trabalhar”, revela Isabel.

“Muitos estão reformados e foram para a rua porque se chatearam com as famílias”, acrescenta a responsável, frisando ainda que a associação ajuda na reintegração de ex-reclusos no mercado de trabalho e suporta o pagamento do alojamento durante o que tempo que necessitarem.

“Estes voluntários tornaram-se verdadeiros amigos.”

Antero Tavares – 63 anos – Desempregado

“Venho aqui todas as quintas- feiras desde que este grupo se juntou. Tenho de recorrer até eles porque não tenho dinheiro suficiente para me alimentar. Também vou buscar comida a outras carrinhas que fazem distribuição. Se não arranjar refeições, fico horas sem me alimentar. Muitas vezes não consigo almoçar, por falta comida, uma vez que ninguém faz distribuição durante as manhãs. Estes voluntários tornaram-se verdadeiros amigos. Já lido com eles há muito tempo e alguns até me chamam de «avô». No início traziam poucas coisas, mas depois começaram a juntar-se mais pessoas e o número de refeições aumentou. Apareço sempre para recolher a refeição quente, a cesta básica e alguns alimentos para comer em casa. Com esta iniciativa, ninguém é esquecido e somos muitos valorizados por esta equipa”.

“Esta distribuição de comida e outros bens é muito importante para mim, pois preciso mesmo desta ajuda.”

José Almeida – 49 anos – Desempregado

“Comecei a recorrer a esta ajuda quando ainda estavam ao lado do Teatro de S. João. Inicialmente, entregavam um «kit» com roupa e alguns alimentos. Ao longo destes meses notei uma enorme diferença neste grupo de voluntários. Eram apenas sete e agora são mais de quarenta e há um grande espírito de equipa entre todos eles. Esta distribuição de comida e outros bens é muito importante para mim, pois preciso mesmo desta ajuda. Há uns meses era mais um naquela fila, agora juntei-me a esta equipa e também dou apoio na distribuição de alimentos e roupas”.

A maior parte das pessoas que recorre a este apoio vive no Porto, mas existem muitos outros que chegam de outras cidades, assim como ex-emigrantes.

À medida que a noite cai, a fila ao longo do Largo da Batalha vai crescendo com pessoas de todas as idades, muitas com crianças ao colo e carrinhos com bebés. Na chegada à frente, junto dos voluntários, ouvem-se pedidos como “quero mais uma refeição para guardar” ou “dê-me um peluche para a minha neta”.

Ao observar todas essas pessoas, Isabel esclarece que é criada “uma ideia errada” em relação a quem recorre a esta ajuda.

“Acham que na rua só existem drogados. Se olharem para esta fila, poderão ver idosos, pessoas de todas as idades…famílias com bebés ao colo”, refere, lembrando que muitas destas pessoas, das que vivem na rua, têm graves problemas psicológicos e com os familiares.

Mais de 40 voluntários percorrem a cidade

Todas as semanas, a associação entrega mais de 240 refeições quentes e cerca de 200 cestas básicas com alimentos. São mais de 300 as pessoas em dificuldades que sentem um pouco de aconchego por parte de quem, inicialmente, não lhes era nada, mas que com o passar dos dias se tornou um verdadeiro amigo.

Além de estarem na Batalha, os «Amigos improváveis» fazem também uma ronda pela cidade do Porto e levam alimentos a todos os que não se conseguem deslocar.

É notória a entrega e o companheirismo dos voluntários que, ao longo da noite, não poupam nas palavras de carinho e aconchego para as pessoas que ali se juntam.

“Já tiramos muitas pessoas das ruas e, felizmente, hoje estão a trabalhar”

Isabel destaca que são 46 os voluntários que compõem a equipa, sendo que, normalmente, nunca estão todos, pois são várias as tarefas que lhes são entregues.

“Temos pessoas em lista de espera que se querem juntar a nós e ajudar nesta causa. Nas redes sociais também nos perguntam se podem ajudar e todas as semanas temos os chamados voluntários “convidados” que veem esporadicamente para poderem dar a vez a outros. Após essa experiência connosco, tentamos ver se têm o perfil para ficar aqui ou não”, revelou a responsável.

Para a associação poder ajudar, são vários os parceiros que também se juntaram a esta iniciativa: “A comida que doamos é sempre confecionada no próprio dia em que é entregue. Nunca são sobras. Vamos buscar a restaurantes e temos alguns amigos que patrocinam”.

Para além disso, recebem ainda “ajuda de patrocinadores que ligam e perguntam quais são as necessidades e veem cá trazer os produtos”. O facto de não terem um armazém para guardar alimentos faz com que a cada semana comece uma nova «luta»: a de garantir o necessário para que nada falte aos que ali se deslocam.

Por isso, o grande objetivo da associação é conseguir um espaço próprio onde possam armazenar e distribuir os alimentos, sem terem de sofrer com a ira dos invernos rigorosos, típicos da cidade, pois “não há uma quinta-feira à noite” em que faltem ao seu compromisso com os que precisam.

Por enquanto, resta-lhes lutar com as armas que têm já que nada mais podem fazer a não ser “ouvir as suas histórias e aquecer os seus corações”, diz Isabel, antes de se juntar aos companheiros.

Associação precisa de psicólogos para “ouvir histórias”

Dulce Paiva faz parte do grupo de voluntários que se juntou a esta causa. Há mais de quatro meses que colabora na confeção de refeições e todas as quintas-feiras se junta aos companheiros para mais uma noite de solidariedade.

“Durante o confinamento achei que devíamos fazer alguma coisa por quem estava à nossa volta e dada a situação também em que me encontrava, dei mais valor a estes atos. Estou sempre à espera de quinta-feira para poder ajudar”, revelou Dulce.

“A experiência tem sido muito boa. É uma sensação de gratidão e de dever cumprido podermos ajudar o próximo”, salienta a voluntária.

Dulce Paiva faz parte da associação há relativamente pouco tempo, mas já tem algumas histórias que a marcaram: “Recebemos uma senhora de Coimbra que veio ver os filhos e foi rejeitada pelos dois. Nenhum deles a recebeu. A senhora não tinha forma como ir para casa, não tinha dinheiro, nem onde passar a noite. Esse foi um dos episódios que me tocou mais, porque era uma pessoa já com alguma idade e chocou-me muito o facto de os filhos não lhe abrirem a porta”.

A voluntária acrescenta que os «Amigos Improváveis na Rua» pagaram o hotel para pernoitar e, no dia seguinte, uma das voluntárias levou-a à central de transportes.

“Nunca falhamos à quinta-feira com as pessoas que estão à nossa espera. Conseguimos sempre conciliar a nossa vida pessoal, porque há uma vontade muito forte”, terminou.

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