13 Maio 2022, 11:45

Pandemia “forçou” professor cabo-verdiano a transformar grutas em pensão e restaurante

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Mangue das Sete Ribeiras, Cabo Verde, 09 mai 2022 (Lusa) — Emanuel Moreira é um dos professores cabo-verdianos que foi obrigado a ficar em casa em 2021 devido à pandemia de covid-19 e “refugiou-se” numas grutas na Calheta de São Miguel, onde construiu uma pensão e um restaurante.


“Venho sempre à praia tomar banho, vi que o espaço estava praticamente abandonado, porque nem sempre praticamos agricultura aqui porque há muitos animais soltos a invadir o terreno. Por isso, eu disse: vou começar a trabalhar ali”, conta à agência Lusa o empresário, de 42 anos, que é também professor de educação artística do segundo ciclo. 


Depois de cercar o espaço e de limpar uma horta, Emanuel Moreira, mais conhecido por Kim, disse que sentiu a necessidade de ter um espaço para guardar os materiais que usa para a prática da agricultura no local.


E assim ocupou a primeira gruta, que antes servia para abrigo de pássaros, na baía de Mangue das Sete Ribeiras, no município de Calheta de São Miguel, situada na estrada nacional Praia — Tarrafal, a pouco mais de uma hora de carro da cidade da Praia, via litoral da ilha de Santiago.


Mas a ousadia foi vista com alguma desconfiança. “No início houve algumas críticas das pessoas porque a água não estava a ser suficiente para a comunidade e também para a prática de agricultura de regadio”, diz.


Assim, todos puseram mãos a obra e limparam um poço local, com Emanuel a continuar os trabalhos na caverna, que rapidamente foi transformando, e deixou todos de boca aberta.


“Trabalhámos a casa e chamou bastante a atenção das comunidades, muitas pessoas começaram a parar, a perguntar o que é que está a surgir aqui”, continua Kim.


E depois de seis a sete meses de intenso trabalho, viu que era necessário alargar mais o espaço e foi aí que começou a pensar em construir uma pensão, que abriu em 15 de janeiro último, Dia de Santo Amaro Abade, padroeiro do concelho vizinho de Tarrafal.


Com três quartos, revestidos de madeira no exterior, o que impressiona mais são os rochedos no interior, a frescura que dispensa ar condicionado e a simplicidade, num autêntico contacto com a natureza.


Mas todo o resto é igual a um quarto normal, com casa de banho privativa, cama, sofá, num empreendimento que ainda está em construção, destacando-se também a predominância da madeira, o material preferido de trabalho do professor de artes.


Com o nome de Grutas dos Amores, já está a atrair muitos curiosos para a baía, que é classificada com monumento natural de interesse paisagístico e geológico pela câmara municipal de Calheta de São Miguel.


A autarquia escreve na sua página oficial que durante muito tempo a baía foi utilizada como um dos principais portos abastecedor da zona norte do concelho, a partir de uma praia que continua a servir de ancoradouro dos botes locais, que abastecem o restaurante da pensão.


Em quase quatro meses, a pensão já recebeu cerca de 50 hóspedes, segundo o promotor, que não descurou as questões de segurança, e os tetos, mesmo que de rocha bastante sedimentada, foram pichadas e protegidas com produtos especiais, sendo que há partes com betão armado “para quem tem medo de ficar literalmente debaixo de uma rocha”.


E por ser inclinada, qualquer pedra que cai da falésia vai diretamente para a horta, e Kim aproveitou para pedir apoio para colocar uma rede, para garantir ainda mais segurança para os visitantes, que, entre pensão e restaurante, já são mais de 1.000.


E para o futuro, não tem dúvidas que os quartos, a preço de 2.000 escudos (18 euros) por casal, incluindo pequeno-almoço, não vão conseguir responder a tanta procura. “Os quartos que nós temos não vão chegar. Estamos a ser muito solicitados”.


E as atrações são muitas. Além da vista deslumbrante na baía, cuja aldeia mais próxima é Achada Monte, as especialidades da casa são os produtos locais, peixe e mariscos e carneiro assado.


“É um turismo de montanha, de natureza, do espaço verde. É isso que nós queremos proporcionar aqui”, garante o professor, que não avança quanto já investiu até agora, mas diz que foram todas as poupanças de uma vida.


“Coloquei todas as minhas economias aqui, para ver se mais tarde eu possa alcançar algum objetivo”, perspetiva o empresário, que ainda é proprietário de três viaturas hiace, que fazem o transporte de passageiros interconcelhos em Santiago e que também lhe dão algum desafogo financeiro para continuar a investir no empreendimento.


Por isso, os trabalhos vão continuar, com a construção de mais quartos, alguns sem ser em grutas, para, explica, poderem também receber pessoas que têm algum receio de dormir debaixo de uma rocha.


E como tudo está praticamente no início, a autarquia local ajudou com um contentor de lixo e limpeza dos arredores, o promotor aproveitou para pedir apoio das instituições, tanto públicas como privadas, para proteção da falésia e para a construção de um parque de estacionamento.


Aos fins de semana, altura com maior movimento, o espaço conta com oito a 10 funcionários, enquanto durante a semana são três, diz o empresário, que espera receber turistas e emigrantes no verão que se aproxima.


E também ter um espaço para exposição de produtos dos Rebelados de Espinho Branco, uma comunidade religiosa, que durante mais de 60 anos viveu isolada do resto de Cabo Verde, e que está concentrada em Espinho Branco, também no município da Calheta de São Miguel.


Emanuel Moreira também quer realizar todo o tipo de programas, desde receções, batizados, aniversários, jantares, e ver o espaço incluído nos roteiros das agências de viagens e turismo de Santiago, sendo também o representante em São Miguel de uma empresa do setor.



RIPE // VM


Lusa/Fim

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