08 Outubro 2022, 12:06

“Parte do dinheiro gerado nos grandes centros deve ser investido no interior” – Reportagem na Serra da Estrela

Filipa Júlio Administrator

Tiago Barata tem 40 anos e investiu numa plantação de mirtilos no interior do País, mais especificamente em Travancinha, Seia. Os pais são naturais de Góis e foi nessa terra do centro de Portugal, onde cresceu, que tomou contacto, pela primeira vez, com os fogos, nos anos 1990.
Outros se seguiram, em 2001, 2015, 2017 e… 2022.

Pela terceira vez, viu grande parte do seu projeto de plantação de Mirtilos, na Quinta da Cumieira, financiado por fundos europeus, queimado pela fúria das chamas que se aproximou vindo dos campos vizinhos.

Para este produtor, “as pessoas que vivem no interior têm de ser vistas (sem vaidade) como especiais, e que, por isso, devem ser protegidas”. Na sua perspetiva, uma das formas de pôr em prática essa proteção passa por garantir, “em orçamento de Estado, que algum do dinheiro gerado no Litoral, em Lisboa e no Grande Porto, seja transferido, em orçamento de estado, para o interior”.

E justifica: “Quando quisermos vir à Serra da Estrela, ao Piódão, ao Gerês, corremos o risco de já lá não haver nada: nem pessoas, nem árvores… de ser deserto. Mas sinto que estou a ser demagogo, sem esperança absolutamente nenhuma”.

É mais uma das histórias recolhidas pelo Mundo Atual na reportagem realizada por altura dos grandes incêndios que consumiram mais de 25 mil hectares do Parque Natural da Serra da Estrela.

PUB – CONTINUE A LER A SEGUIR



Tiago Barata tem 40 anos e investiu numa plantação de mirtilos no interior do País, mais especificamente em Travancinha, Seia. Os pais são naturais de Góis e foi nessa terra do centro de Portugal, onde cresceu, que tomou contacto, pela primeira vez, com os fogos, nos anos 1990.
Outros se seguiram, em 2001, 2015, 2017 e… 2022.

Pela terceira vez, viu grande parte do seu projeto de plantação de Mirtilos, na Quinta da Cumieira, financiado por fundos europeus, queimado pela fúria das chamas que se aproximou vindo dos campos vizinhos.

“Fala-se muito em copos de plástico, lítio ou carros elétricos, e o verde que é verde não cuidamos. Em 2017 ficamos com a floresta pelada e perdemos uma oportunidade de ouro para reordenar a floresta. Se não tivesse as contas para pagar, o meio milhão de euros investido, tinha ido embora no dia 10”, garante.

Em 2017, ficaram afetadas seis mil árvores de uma plantação com um ano de existência e, agora, os danos caíram sobre cinco mil.

“Primeiro, dizem-nos que é um ato isolado, que não pode acontecer, mas, de repente, passa a ser intitulada de normal. Ou como dizia o professor Marcelo há dias, em Alvares, na freguesia dos meus pais: “É um clássico”. Isto não pode ser um clássico. Perdemos um património como o da Serra da Estrela, como não existe noutro sítio do País, para além dos bens das pessoas, dos pastos dos animais, do alimento que os pastores tinham para o inverno e a senhora ministra vem dizer que tem uma verba de 500 mil euros”, começa, por dizer, em jeito de desabafo, Tiago Barata.

A conversa desenrola-se entre fileiras de arbustos pintalgados de mirtilos mirrados e folhas secas pelas altas temperaturas a que foram sujeitas. Enquanto isso, as crianças, que acabaram de se conhecer, brincam juntas, num silêncio cúmplice.

“Se nos incutem esta esperança no interior e até são lançados incentivos, não podemos, depois, ficar ao abandono. Tenho uma produção de mirtilos, e vejo isto como uma indústria, e como uma fábrica, mas as pessoas que trabalham para mim aqui na aldeia, também perderam aquele bónus anual: da venda das uvas, dos animais, das oliveiras, do azeite. E ao mesmo tempo a esperança”, conta o produtor.

Em janeiro e fevereiro Tiago dá trabalho a 10 pessoas; a monda envolve, regularmente, sete pessoas, de Maio a Agosto, há 30 pessoas a colher fruta, a tempo inteiro.

“Pagamos em horas, em média, mais do ordenado mínimo nacional, num horário flexível. Foi uma coisa boa para a região. Os meus colaboradores visitaram-me ao final do dia, com lágrimas nos olhos. Eles sentem o que perdi aqui, pois perdem também parte do seu trabalho”, explica.

E sublinha: “Quem foi escolhido por nós para nos governar, a régua e esquadro em Lisboa, não tem a mínima sensibilidade do que está a acontecer aqui. E às vezes dá-se mais valor a um animal abandonado na capital (com todo o respeito porque tenho muitos) do que a uma pessoa que perdeu dez cabeças de gado em Oliveira do Hospital, em Seia, ou em terras de Folgosinho. Isto não pode acontecer”.

Tiago Barata questiona “por que a Serra da Estrela esteve a arder durante largas horas e a ser combatido por apenas 100 bombeiros”, e a existência de bombeiros assalariados e outros pagos, ou o perverso grande negócio da aviação”.

Considera que “não valor que pague, nem tempo para repor, o atual consumir de natureza”.

“Fala-se muito em copos de plástico, lítio ou carros elétricos, e o verde que é verde não cuidamos. Em 2017 ficamos com a floresta pelada e perdemos uma oportunidade de ouro para reordenar a floresta. Se não tivesse as contas para pagar, o meio milhão de euros investido, tinha ido embora no dia 10”, garante.

“Pessoas do interior têm de ser vistas como especiais”

Para este produtor, “as pessoas que vivem no interior têm de ser vistas, sem vaidade, como especiais, e que, por isso, devem ser protegidas”.

Na sua perspetiva, uma das soluções passa por garantir, “em orçamento de Estado, que algum do dinheiro gerado no Litoral, em Lisboa e no Grande Porto, seja transferido, em orçamento de estado, para o interior”.

E justifica: “Quando quisermos vir à Serra da Estrela, ao Piódão, ao Gerês, corremos o risco de já lá não haver nada: nem pessoas, nem árvores… de ser deserto. Mas sinto que estou a ser demagogo, sem esperança absolutamente nenhuma”.

Agora que chegou aqui…

Ao longo do último ano, o MUNDO ATUAL tem conquistado cada vez mais leitores.
Nunca quisemos limitar o acesso aos nossos conteúdos, ao contrário do que fazem outros órgãos de comunicação, e mantivemos sempre todas as notícias, reportagens e entrevistas abertas para que todos as pudessem ler.
Mas precisamos do seu apoio. Para que possamos, diariamente, continuar a oferecer-lhe a melhor informação, não só nacional como local, assim como para podermos fazer mais reportagens e entrevistas do seu interesse.
O MUNDO ATUAL é um órgão de comunicação social independente e isento. E acreditamos que para que possamos continuar o nosso caminho, que tem sido de sucesso e de reconhecimento, é importante que nos possa ajudar neste caminho que iniciámos há um ano.
Desta forma, por tão pouco, com apenas 1€, pode apoiar o MUNDO ATUAL.

Obrigado!

Sem comentários

deixar um comentário