25 Outubro 2021, 14:09

Pedro e Inês de tantas histórias

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

Numa cena de um filme antigo a preto e branco, são o que abençoadamente sonharam, terão sempre Paris, mas mais importante, são prolongamento um do outro, história e memória intemporal.

Deixo cair a última estrela e aceito de bom grado a paz que o silêncio me traz.
Procuro as palavras certas, que de alguma forma façam justiça à história que quero contar.
Pedro tinha um mar: azul na cor dos olhos, infinito como o tanto que sonhava alcançar.
Os outros meninos tinham comboios elétricos, carros de bombeiros, carolos, bolas de futebol, pistas de automóveis e afins.
Pedro, todo um oceano, onde foi pirata, namorado de sereias, capitão de Galeão e numa noite de Lua cheia venceu até um tubarão.
Inês também sonhava, com as cores da coragem e as asas da imensidão.
Almejava cuidar.

PUB – CONTINUE A LER A SEGUIR



Foi enfermeira de peluches remendados, veterinária de bichinhos de conta e associados, fada capaz de sarar todas as feridas, confidente da Barbie zangada com o Ken e colo pronto de quem nele precisou ficar.
Encontraram-se enquanto cresciam, quase indiferentes aos desígnios do destino.
Há trinta décadas descobriram por fim, que neles naufragava um navio que ansiavam por resgatar.
Um navio carregado de futuro e uma mão cheia de vontades.
Para que não se procurassem ao engano, sem alento, sem plano, escreveram o nome na areia molhada como um sinal, um fado, uma sorte.
Encontraram-se muitas milhas antes de alcançarem terra firme.
De repente, a paixão era urgente e o mundo um universo paralelo onde não cabiam mais.
Apaixonaram-se num momento desprevenido e tiveram por cúmplices as gaivotas.
Reconhecem hoje a presença um do outro na almofada marcada no sofá, nos óculos esquecidos sobre a mesa, no copo fora do lugar, no CD que toca Sade, nas fotografias de expressões tontas nas paredes da casa, no cortinado de transparências que dança com a brisa, nas rugas finas dos olhos dela e nos pêlos brancos da barba dele.
Encontraram-se à força de se desejarem e ao calcorrearem o tempo, a persistência de um amor tão certo.
Numa cena de um filme antigo a preto e branco, são o que abençoadamente sonharam, terão sempre Paris, mas mais importante, são prolongamento um do outro, história e memória intemporal.
Partilham madrugadas, dividem o mesmo copo, são fotografia dos canais de Amesterdão, das praias de Ibiza, da magia de Nova Iorque, desatam a saudade, apanham gripe um do outro, são solidários nos medos, nas insónias, nos percalços, exuberantes nas vitórias, sabem a quantidade exata de açúcar que cada um põe no café, a hora do dia que mais gostam, os lugares que querem visitar, os livros que querem ler, a vida que querem celebrar.
Não foi trilhado ao acaso o caminho que os diz, mesmo porque se resgataram do fundo do tempo, atravessaram ventos e marés, venceram tempestades, dobraram cabos e descobriram novas rotas ao determinarem fazer um do outro porto seguro.
A última estrela há muito que caiu e as palavras certas porventura não chegaram.
Precisei de várias, para assegurar que esta sorte não é breve, mas antes, de invejável persistência e poesia.
Apaga e acende a Lua, enche e esvazia marés, seca e inunda desertos, ilumina e enternece o mundo.
A história de D. Pedro e Inês de Castro não se esgota no século XIV, perpetua-se no tempo, renasce a cada amor vivido, não carece de finais trágicos como o original e tal como reza a lenda, exige verdade, eternidade e transcendência na justa medida.
Requer empenho, resiliência, liberdade, assombro, entrega, cedências, confiança, esperança.
Requer que a vida pulse alternadamente em ritmo binário, num espaço em que caiba o testemunho da individualidade de cada um e o legado irrepetível do caminho que se faz a dois.
Possível para todos?
Somente para alguns afortunados e a sermos um deles, que permaneçamos gigantes, leais aos sonhos por cumprir, crentes que é sempre o amor que nos salva.

Últimos comentários

  • A suavidade que se sorve da tua escrita é um bálsamo para estes “dias de peste”.
    Pedro e Inês! Claro, quem mais poderia ser! E logo na Quinta das Lágrimas, tão perto de um “Mondego de Flores Despertas” ( tu sabes…).

  • A cada “saída” aprimoras , em crescente delicadeza, as suaves “fragâncias” da tua escrita. O teu MUNDO ATUAL , de imaginação farta e florida, cola-se-nos à pele e invade-nos o coração 💔. Parabéns .

deixar um comentário