04 Julho 2022, 03:15

Pessoa manteve-se na infância sem construir uma identidade

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Lisboa, 19 mai 2022 (Lusa) – Sexualidade, espiritualidade e política são os aspetos que Richard Zenith priorizou na biografia de Fernando Pessoa, o poeta que nunca saiu da infância e não investiu na construção de uma identidade.


“Pessoa. Uma biografia”, editada pela Quetzal, é a mais completa e inovadora biografia de Fernando Pessoa, escrita por Richard Zenith, em mais de mil páginas, que é lançada hoje na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


Para a escrever, o escritor e tradutor norte-americano, radicado em Portugal, mergulhou no espólio do poeta, essencialmente na sua obra, mas também em notas do quotidiano, papéis dos tempos em que viveu em Durban (África do Sul) — durante a infância e adolescência – e cartas inéditas.


Admitindo a subjetividade inerente ao papel do biógrafo e as escolhas que tem de fazer, Richard Zenith contou, em entrevista à agência Lusa, que não quis “forçar muito uma leitura única, queria deixar aberto o livro a várias interpretações, que os leitores pudessem chegar lá e tirar as suas próprias conclusões sobre a política de Pessoa, a sua relação com o Além, toda aquela demanda espiritual que era muito importante em Pessoa. Queria uma obra aberta”.


Esses foram os temas que escolheu priorizar, porque Pessoa sempre se “interessou imenso por política”, mas também por essa “demanda espiritual”, uma “busca que aumentava à medida que ele foi avançando na vida”.


“Para além disso, uma coisa talvez menos óbvia, era a sexualidade que é um tema importante no livro. A mim parece que, injustamente, nos últimos anos, em termos biográficos, não tem sido muito recordado, mas lendo a obra de Pessoa — embora Pessoa não tenha tido muita vida sexual por fora -, este é um tema que percorre a sua obra, desde os anos 1910, pelos menos, e na poesia, também nos seus apontamentos, textos em prosa. Então, achei que valia a pena falar sobre isso”, afirmou.


Segundo Richard Zenith, “ele incluir [a sexualidade] na sua escrita e tratar o tema enquanto poeta, é também uma maneira de a energia sexual ficar convertida nessa proliferação do texto, como que uma exuberância que há no sexo e que em Pessoa há na escrita”.


Nesse tratamento subjetivo do texto, o biógrafo diz que nunca sentiu a tentação de “proteger” o biografado, embora admita que pode acontecer por vezes, e exemplo disso são alguns temas que menciona como “o racismo e um possível antissemitismo”.


“Eu abordei porque realmente há. Não significa que Pessoa era um racista, mas há comentários na sua obra, em que podemos perceber claramente que havia um racismo, como muitas pessoas tinham, e ainda têm. É inútil negar isso, e eu falo desses comentários. Fica evidente que achava que os africanos negros não tinham a mesma inteligência. Não que sentia hostilidade para com eles, mas era uma espécie de racismo”.


Em relação aos judeus, afirma que “é um tema que não tem sido muito estudado”, mas encontrou “bastantes inéditos sobre esse tema”.


“E depois é curioso, um bocado difícil explicar por poucas palavras, mas não me parece que Pessoa era antissemita, mas tinha algumas ideias curiosas sobre o povo judeu que eu no livro exploro”, acrescentou.


Um outro tema polémico que por vezes envolve o nome do poeta era o de uma certa simpatia para com o salazarismo, que Richard Zenith esclarece: Fernando Pessoa – que sempre foi um dos principais opositores ao fascismo de Mussolini, mesmo na altura em que era mundialmente elogiado — não apoiava publicamente Salazar, mas em privado tinha “esperança e alguma fé que Portugal estava no bom caminho”, porque enquanto ministro das Finanças “fez um bom trabalho de sanear as contas públicas”.


“Então, estava disposto a dar uma chance a esse governo de Salazar, só que no último ano sentiu na pele a censura do Estado Novo, e foi isso que desencadeou uma reação muito forte contra Salazar, e é interessante pensar, se não tivesse morrido em novembro de 1935, como seria nos anos seguintes. Ele com a sua oposição tão forte contra o Estado Novo poderia ter tido problemas”.


Richard Zenith sente-se como um “amigo póstumo” de Pessoa, mas não um amigo íntimo, no sentido de perceber tudo o que lhe acontece por dentro, coisa que “ninguém percebia”, porque Fernando Pessoa “era solitário, mas era social também, tinha um bom sentido de humor, mas era extremamente reservado, não revelava aquilo que sentia facilmente, e onde se revelava mais era na obra, em contacto com as pessoas não tanto”.


“O problema é que Pessoa não investia os seus sentimentos e pensamentos na construção de um ‘eu’, então falar de conhecer Pessoa… Pessoa não está lá, ele é sempre outra coisa (…). O interior de Pessoa está sempre em mudança e quando eu digo que ele não investia na construção do seu ‘eu’, investia era na sua obra. Todos aqueles sentimentos e pensamentos, ele punha na obra e mudava muitas vezes ao longo da vida, uma mudança contínua”.


Isto vê-se, por exemplo, nas 47 identidades em que Fernando Pessoa se multiplicou, incluindo os três heterónimos plenamente desenvolvidos — Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis –, que aparecem indexados no início da biografia.


A heteronímia em Pessoa é um fenómeno que “começa desde muito cedo, mais ou menos quando começa a escrever”, pois “esse desdobramento, essa invenção de outros ‘eus’, autores fictícios, está fortemente ligada com a própria escrita”, revelou.


“Pessoa tinha essa capacidade, mesmo em adulto, de tratar essas personagens inventadas como entes companheiros, entes quase reais, como fazem as crianças, que sabem perfeitamente [que não são reais], mas inventam companheiros” e têm bonecos a quem atribuem vida, sentimentos e necessidades.


“Depois quase todas as pessoas perdem isso, quando chegam à adolescência ou vida adulta, mas Pessoa não. Pessoa conservava essa capacidade de pôr a vida imaginária quase no mesmo pé da vida real, sabendo perfeitamente que não era verdadeira. Isso é que dá tanta vida a essas criações de Pessoa e a toda a sua obra literária”, considerou.


Está relacionado com uma dessas personagens um dos episódios que mais surpreenderam Richard Zenith na investigação do espólio do poeta, numa “carta inédita em poder da família, que Fernando Pessoa recebeu em 1906”, cerca de seis meses depois de voltar de Durban para Lisboa.


A carta vinha de Londres, escrita em inglês por um colega de Durban que tinha ido estudar para Inglaterra. Tinha quatro ou cinco páginas, começava com “My dear P.” (“Meu querido P.”) e contava coisas sobre os amigos em comum, coisas que tinham feito, para onde cada um tinha ido estudar, além de incluir muitas piadas, contou.


“Percebi também que Pessoa não só tinha esse grupo de amigos – que para mim era uma novidade absoluta, porque sempre achei que era bastante solitário e bastante sem amigos, em criança e na adolescência –, como também era um protagonista do grupo. Achei tudo isso muito estranho. Depois, havia coisas estranhas, referências estranhas, e finalmente consegui decifrar a assinatura, que não era fácil, e era de um heterónimo – Gaudêncio Nabos — que Pessoa inventou em Durban”.


“Quando vi isso, para mim foi ainda mais inacreditável: eu não acreditava no conteúdo da carta nem nessa historia dos amigos que Pessoa tinha em Durban, mas mais inacreditável era que uma pessoa com quase 18 anos escrevesse uma carta com 4/5 páginas, com todos esses pormenores, todas essas coisas inventadas, que é só imaginário. Isto é um exemplo desse jogo, do lado infantil de Pessoa que persistia”.


Escrever esta obra monumental, uma biografia que conta um total de 1.184 páginas e é a mais completa desde a de João Gaspar Simões, publicada em 1950, foi “muito difícil”, e Richard Zenith confessa que foram várias as vezes que pensou por que é que se metera naquilo e que achou que “não ia dar bons resultados”. Mas nunca ponderou desistir.


“Pessoa interessava-se por tantos assuntos, que dar conta desses assuntos todos, da época em que viveu, a sua vida interior, a sua vida exterior, a sua obra enorme… Realmente, em várias alturas eu estava quase arrependido”.


Richard Zenith sentia a segurança de saber que, pelo menos, seria melhor do que as biografias anteriores, “o que não quer dizer muito, porque hoje em dia sabe-se muito mais sobre Fernando Pessoa”, graças às investigações que entretanto foram surgindo.


“Poder ultrapassar não seria tão difícil assim, mas escrever o livro que eu queria, que conta uma história com garra, tive grandes dúvidas que fosse acontecer”.



AL // MAG


Lusa/Fim

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