20 Setembro 2021, 07:49

“Portugal não trata bem os seus trabalhadores” – Rita Nóbrega Gomes

Susana Faria AdministratorKeymaster

Rita Nóbrega Gomes tem 29 anos, nasceu em Lisboa, cidade onde viveu até à adolescência, e é Developer.NET em Bruxelas. Depois de alguns desencontros com a capital portuguesa, uma vez que se mudou para as Caldas da Rainha com os pais, o destino e os estudos levaram Rita a regressar a Lisboa. No entanto, em 2018 o sonho de viver uma experiência internacional fez com que a engenheira comprasse um bilhete apenas de ida para a Bélgica, onde ainda vive. Ao Mundo Atual, conta que Bruxelas foi a cidade que a acolheu e da qual não pretende sair, pois “Portugal não trata bem os seus trabalhadores, muito menos os mais jovens”. A comida, o sol e o aconchego dos portugueses é que o sente mais falta do nosso País, por isso, de “dois em dois meses” regressa a solo luso onde corre “todas as capelinhas” na tentativa de rever amigos e família.

Porque decidiu emigrar?
Porque sempre quis ter uma experiência internacional e porque as condições financeiras eram muito vantajosas.

Por que países já passou?
Só vivi em Portugal e na Bélgica.

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Como tem sido a experiência em Bruxelas?
Tem sido bastante boa. Vim sem grandes expectativas e acabei por gostar bastante da cidade. Também fiz amigos depressa, o que ajudou. A nível cultural é bastante diversa, há sempre qualquer coisa a acontecer, e não é tão turística como outras capitais europeias. Quanto ao resto do País, existem cidades lindíssimas, como Ghent e Bruges, pelo que há sempre destino para uma escapadinha de fim-de-semana. No que toca a defeitos, a burocracia belga faz-nos sentir saudades da portuguesa. E os invernos conseguem ser bastante deprimentes.

Como se vive aí esta pandemia?
Neste momento, a situação está muito mais controlada. As medidas aqui foram muito mais rigorosas do que em Portugal. Durante um ano não tivemos restaurantes, nem sequer esplanadas. O setor cultural também esteve completamente parado, apesar de ter sofrido menos do que em Portugal. Sinto que a saúde mental de todas as pessoas foi afetada, sofreu-se muito com o isolamento e com a situação dramática em novembro, em que o País esteve à beira da rutura. Agora que a situação está melhor, também se veem atitudes muito irresponsáveis por parte de algumas pessoas: festas ilegais, utilização de transportes públicos sem máscara, máscaras debaixo do nariz em espaços fechados… Mesmo assim, sinto que depois de um início conturbado, o Governo conseguiu gerir a situação de forma razoável.

Quais são os principais desafios pessoais e profissionais?
A nível pessoal, neste momento o principal desafio será combater o isolamento social. Esta pandemia fez de nós “bichos-de-mato” – e eu já era um pouco assim antes dela -, pelo que agora que começamos a retomar certas atividades que deixaram de ser normais e é preciso um período de habituação. A nível profissional, o principal desafio será continuar a crescer e a apostar na minha carreira e formação. Felizmente, trabalho para uma empresa que reconhece o meu mérito e aposta em mim.

Vim sem grandes expectativas e acabei por gostar bastante da cidade.

Como gere o facto de estar longe da família e dos amigos?
Acho que essa é a parte mais complicada da vida de qualquer emigrante. Vou mantendo o contacto, falo com os meus pais por WhatsApp todos os dias e estou sempre em contacto com os amigos. Quando vou a Portugal, durante alguns dias “corro todas as capelinhas” de forma a tentar rever o máximo de amigos.

Do que sente mais falta?
Da comida “da mamã” e do sol. É cliché, mas é mesmo o que mais custa. E depois também há coisas que não notamos que sentimos falta: a forma de estar, os cafés onde se entra e diz “bom dia!” em voz alta e nos conhecem…o tratamento caloroso na maioria dos estabelecimentos.

Vem com frequência a Portugal?
Sim, tento ir pelo menos a cada dois meses, e os meus pais também vêm com frequência a Bruxelas.

Está nos seus planos regressar definitivamente a Portugal?
Não. Só voltarei caso os meus pais precisem da minha assistência ou para viver a reforma. Portugal não trata bem os seus trabalhadores, muito menos os mais jovens: salários baixos, rendas altas, cultura de burnout. Enquanto essa situação não se alterar, não há qualquer atração para a mão de obra qualificada voltar a Portugal.

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