06 Julho 2022, 07:21

Posso respirar na tua história? – Sandra Januário

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

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Estou segura que te sobeja agilidade e energia para afirmares o teu lugar no mundo e no coração de com quem escolheste viver o teu primeiro romance, não fosses tu miúda de iniciativa, certa de que o que te impele ao salto é tão maior do que o que te faz temer a queda.

A minha filha mais velha adolesce.
Sobre ela.
Refuta como respira, cresce em caráter, ideais, sonhos e valores.
Dona de semântica que não se demora na forma poética antes na pontaria certeira de seta a caminho do alvo.
Acata quando encontra sentido, agiganta-se quando o tema é descriminação e desigualdade e pensando bem, é capaz de ter opinião sobre praticamente todas as questões do universo.
Habita um tempo sem pressa, num prolongamento infinito alheio a qualquer sombra de finitude.
Por estes dias adormece muito depois das estrelas entre suspiros e sussurros quando por fim o frenesim de emoções e pirilampos de entusiasmo concedem tréguas.
Num voo rasante apresenta-se quase segura e anuncia o primeiro namorado.
Desperto de uma espécie de hibernação de conforto outonal para um Sol estival que me arde por dentro.

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Terei de aprender doravante a respirar dentro da tua história filha minha, e no processo, sacudo a poeira da memória ainda tão tangível dos meus amores primeiros.
Longe de ser a melhor mãe do mundo ( questiono a cada passo o conceito ), na minha declarada imperfeição sopra um vento arisco onde baloiçam angústias e medos não negligenciáveis.
Crescer é inevitável e não se faz sem dor é certo, a autonomia acontece aos trambolhões precisamente quando a labilidade emocional é tão fértil quanto o impulso.
O tempo imediato é o único que conheces e talvez a sua sobrevalorização seja causa da intolerância que possuis em relação à sabedoria da espera.
Estou segura que te sobeja agilidade e energia para afirmares o teu lugar no mundo e no coração de com quem escolheste viver o teu primeiro romance, não fosses tu miúda de iniciativa, certa de que o que te impele ao salto é tão maior do que o que te faz temer a queda.
Concedes-me condescendência q.b. quando no exercício nobre da maternidade afirmo que o primeiro amor é por definição inesquecível não por ser o maior, mas por ser o primeiro, que por vezes nos apaixonamos pela ideia de estar apaixonados sem correspondência direta com o eleito da altura e que uma sucessão de amores abençoadamente se cumprirão, alguns dos quais nunca chegarão a estrofe de poema.
Não me sinto como nova mesmo porque a idade cronológica assim o desmente, mas sinto-me como imaginei, contemporânea de uma emoção que agora é tua e que me traz saudades e nostalgia de um tempo onde não voltarei a estar: de inquietude, desassossego, borboletas na barriga, ritmo cardíaco acelerado, alegria transbordante, felicidade incontida, na promessa de um encontro, um abraço apertado e olhares demorados.
A idade e alma vivida não me marcam só a pele, conferem-me arquitetura emocional, aprendizagens da jornada, edificação de interioridade e espólio de memórias que alicerçam de firmeza e lisura o que se carrega por dentro e não mais a barriga lisa e o rosto sem réstia de acne.
Dou-te o devido desconto geracional, porque sou afinal adolescente de ontem, quando quase tudo era tão diferente.
Não te esqueças porém que és tu que me envelheces para paradoxalmente me rejuvenesceres, que te vigiarei de longe e olhar-te-ei de perto porque a eternidade que se cumpre no meu amor por ti não é tempo bastante e tem a extemporaneidade de um segundo.
Espero ter-te conferido sentido de permanência e regresso a casa, para voltares a solo firme sempre que te sentires refém do que deves entender como uma pausa de dor num percurso feliz e à qual, caso tenhas aprendido a lição, não conferirás espaço de ameaça aos finais épicos que se seguem.
O amor seja em que idade se apresente é pináculo de todas as emoções que valem a pena, antídoto para os rasgões da alma e tropeços da caminhada, por isso mesmo, não te posso demorar porque a vida urge, mas asseguro-te que para sempre me vou demorar em ti.
A minha filha mais velha adolesce.
Sobre ela.
Ergue-se acima do céu em todos os sentidos.
Rebeldia genética, argumentos afiados, ternura mal disfarçada.
Olhos de luz em pestanas maquilhadas, sorriso aberto de possibilidades infinitas.
Corpo que se afirma na transição de menina a mulher, determinação que claudica na imprevisibilidade e destino da viagem.
Lágrima fácil na presença de afeto verdadeiro, ferro e fogo quando juízos de valor ameaçam o direito inquestionável à diferença.
Na bolha que lhe serve de casulo abre-se amiúde uma janela para o mundo logo que o verbo seja ir e a narrativa viver.
E sabes filha minha, o que tem de bom deixares-me respirar na tua história?
Recordar-me de mim no tanto de ti e prometo, não precisarás de recorrer a uma providência cautelar, respeitarei o espaço que reclamas, mesmo porque, no resgate do que me coube subsiste a lembrança que tudo o que se vive pela primeira vez é inevitavelmente verso de canção: “ a liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo”.

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