10 Agosto 2022, 19:10

Que Sociedade somos ou queremos ser? – José Carlos Nascimento

Professor na Universidade do Minho

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É claramente um não assunto, já que tenho por certo que a maioria dos meus amigos e o leitor que me honra com a sua leitura, ao ver uma pessoa idosa numa situação tão incómoda, podendo ajudá-la, sem grande custo, não deixaria de o fazer: é humano, é da nossa natureza.

Este texto surgiu em cima do fecho e adiou o que aqui era para estar (*).
Curiosamente, o ato que lhe dá origem é de uma enorme banalidade, não tem qualquer relevo ou importância, mas causou reações e pensamentos que motivaram a urgência desta partilha: não tanto de conclusões, que não as tenho, mas de preocupações, para reflexão conjunta, sobre o Mundo atual.
O ato original, ocorreu na manhã da véspera do dia de São João e é simples de descrever: chovia imenso e eu estava abrigado numa esplanada, a tomar café e brincando com a violência da “orvalhada”, quando me apercebi que uma velha senhora, com uma canadiana, se arrastava vagarosamente sob a chuva forte que a apanhara desprevenida.

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Como é óbvio e humano, em segundos, já tinha “roubado” um guarda-chuva e estava a correr para a ir buscar. Aproximei-me, desajeitado, do lado da canadiana e a senhora, bastante idosa, trocou a canadiana para o outro lado, olhou para mim, sorriu e deu-me o braço. Com a sensibilidade do seu gesto eu senti que ganhara o meu dia e que, porque ia seguir dali para o ginásio, eu tinha naquele sorriso o estímulo para colocar mais 5 quilos em cada aparelho.
É claramente um não assunto, já que tenho por certo que a maioria dos meus amigos e o leitor que me honra com a sua leitura, ao ver uma pessoa idosa numa situação tão incómoda, podendo ajudá-la, sem grande custo, não deixaria de o fazer: é humano, é da nossa natureza.
Terminaria por aqui o artigo, que na realidade nem o chegaria a ser. O que o motiva, porém, são as duas surpresas com que sou confrontado posteriormente.
A primeira, imediata, é que ao regressar ao lado da senhora, noto que na esplanada estavam mais pessoas – inclusive o homem mais novo que me “cedeu” o guarda-chuva – e que, porque eu estava distraído, se devem ter apercebido mais cedo das dificuldades da senhora.
A segunda é que, tendo feito uma partilha do sucedido no Facebook, isso mereceu comentários muito elogiosos de muitos amigos. Eu sei que a vida me privilegiou com amigos intelectualmente míopes: conseguem ver de forma aumentada as minhas qualidades, mas não enxergam os meus defeitos e por isso são magnânimos comigo! É que eu não entrei numa casa em chamas nem me lancei ao mar alteroso para salvar alguém em perigo de vida, como já vi outros fazer.
Limitei-me a levantar e a percorrer umas dezenas de metros à chuva, para ajudar uma senhora de idade. Como espero que qualquer um de vós faça, no dia em que eu me mova com dificuldade e a chuva me surpreenda desprotegido.
Enquanto escrevia, recordei que, em janeiro deste ano, o fotografo René Robert, de 84 anos, desmaiou na rua, em Paris e aí permaneceu, caído durante horas, até falecer de frio, porque os parisienses que passaram o ignoraram, pensando tratar-se de uma pessoa em situação de sem abrigo. Ironicamente, foi uma pessoa em situação de sem abrigo que, já demasiado tarde, alertou os bombeiros e, cruelmente, a noticia só foi noticia porque René Robert era uma figura pública e até tinha casa!
Com disse no início, não tenho conclusões para partilhar, mas partilho preocupações.
Partilho a preocupação de querer acreditar que, como ouvi há uns anos, num discurso que me marcou, “o que nos torna diferentes e o que somos como homens e mulheres, é que, para nós, os problemas de um são problemas de todos”.
Partilho a preocupação de querer acreditar que estar atento às necessidades do outro, ver e não ignorar, apoiar quem mais necessita, dar sem ter por objetivo receber, não são boas ações nem são atos dignos de menção. São e tem de ser, apenas o quotidiano e a naturalidade da nossa dimensão humana.
Porque, afinal, se assim não for, que Sociedade somos ou queremos ser?
(*) ia a escrever, sobre um tema mais relevante, mas parei. Afinal, o que poderia ser mais relevante que a solidariedade e a bondade da natureza humana?

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