11 Agosto 2022, 10:14

“Quem vem ao Festival Internacional de BD de Beja já não quer sair da cidade” – Paulo Monteiro

Filipa Júlio Administrator

O Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja já terminou, mas o seu carisma nunca desaparece daquela cidade alentejana. Ano após ano, prancha em cima de prancha, a BDteca vê o seu acervo enriquecido, e a inspiração cresce, através do atelier «Toupeira». À espera do tão desejado Museu.

À semelhança de Angoulême, cidade francesa reconhecida pela sua forte tradição na Banda Desenhada, Beja começa a cativar a fixação de autores e aficionados, que pretendem viver próximo de ‘almas companheiras’, e respirar, diariamente, o espírito desta multifacetada arte.

Paulo Monteiro, autor e diretor do Festival Internacional cuja XVII edição terminou a 12 de junho, garante, ao Mundo Atual que quem vai ao certame “não quer sair de Beja, uma cidade cheia de história e com muito para descobrir”.

A sua ligação à cidade também começou assim, de certo modo, com um enamoramento: aos 21 anos, ainda como estudante, agarrou uma oportunidade para trabalhar em Beja e nunca mais de lá saiu.

PUB – CONTINUE A LER A SEGUIR



Para trás, deixou Alverca, onde cresceu “rodeado de livros de Banda Desenhada”, os desenhos do pai e a escrita da mãe.

A origem do Festival da BD remonta a 1996. Quando a Câmara Municipal decidiu criar um conjunto de oficinas, na Casa da Cultura, coube a Paulo Monteiro orientar o atelier de Banda Desenhada.

“Conseguimos reunir muitos jovens talentosos, que ainda hoje pertencem ao atelier. Chegámos a ser cerca de 20. Fizemos ‘fanzines’ e visitámos vários festivais”, recorda.

Passados nove anos, em 2005, a autarquia “sentiu necessidade de “enquadrar melhor o grupo de jovens criadores”. Assim nasceram o Festival e a BeDeteca”. A partir daí, garante, “as coisas cresceram imenso”.

Certame cativa milhares de visitantes

O Festival leva a Beja cerca de mil visitantes e tem, segundo Paulo Monteiro, características curiosas.

“Junta autores famosos a nível mundial com outros perfeitamente desconhecidos. Todos recebem o mesmo tratamento. Se fosse um festival de música, juntava jazz, metal, transe, fado, pop, rock. Ou seja, estilos muito diferentes, pois a BD é uma arte bastante diversificada.

Muitas pessoas conhecem o Batman, a Mónica, o Cebolinha e pouco mais. Há milhares de outras coisas”, frisa.

Este ano, o Festival apresentou quinze exposições e reafirmou as suas dimensões: A possibilidade do encontro entre autores e público (de todo o País e do estrangeiro), sessões de autógrafos e concertos desenhados e a sua divulgação, que, através da internet dá a volta ao mundo.

“Pedimos sempre uma hora e meia de autógrafos aos autores (alguns festivais pedem sete e oito) e 45 minutos de conversa. O resto do tempo circulam, naturalmente, pelo espaço. É uma espécie de reencontro anual”, descreve.

Para rematar, o responsável sublinha que a BD portuguesa “está a atravessar um bom momento”, pois “começa a ser publicada no estrangeiro com regularidade”.

BDteca: o melhor de dois mundos

A BDteca junta as características de uma biblioteca especializada e as de um atelier, “o melhor de dois mundos”. É ali que, todas as quartas-feiras, se reúnem para desenhar as pessoas do Toupeira [nome do atelier].

“Somos 32 autores de BD, em Beja, alguns a trabalhar para o estrangeiro e a viver exclusivamente disso. E a BDteca tem realizado muitas conferências no País e no estrangeiro, workshops e exposições. E embora o nosso trabalho seja centrado, exclusivamente, no concelho de Beja, acabamos por trabalhar como todo o País, especialmente no Sul, por solicitação”, descreve.

“Museu vai ser um lugar mágico”

O projeto do tão desejado Museu da BD, desenhado pelo arquiteto Manuel Faião, está agora na fase da engenharia, para ser depois candidato a fundos europeus. A ideia do museu cresceu na mesma medida em que o espólio se criou, de um modo natural. “Desde 2005, recebemos muitas ofertas de originais de desenhos, de muitos autores. Além disso, fomos dos primeiros países do Mundo a ter autores de BD. Ou seja, temos uma história fantástica, que começa em 1850, com a primeira prancha publicada por um autor português (assinava como Flora). E temos nomes como Bordalo Pinheiro, Stuart Carvalhais, Almada Negreiros, Carlos Botelho ou o próprio Júlio Resende, fez dezenas de páginas para o Papagaio. É uma tradição muito rica, com artistas fantásticos”, explica Paulo Monteiro.
O Museu ficará instalado num edifício dos finais do século XIX, situado no Centro Histórico, que passará a centralizar toda a dinâmica existente. Irá contemplar 12 salas (sete para a exposição permanente, três para a Bedeteca e acervo bibliográfico, duas para exposições temporárias), uma loja, espaço de atelier (Toupeira) e terraço com vista sobre a planície alentejana: “Vai ser um sítio muito bonito. Visitamos muitos museus na Europa, e acredito que vai ser um espaço mágico”. O objetivo é, diz o responsável, perpetuar o trabalho desenvolver até aqui: “A Banda Desenhada tem um alto potencial educativo. A relação com o desenho é mais direta e orgânica, do que com a palavra. Pode auxiliar o estudo, abrir caminho para outras leituras e despertar múltiplos interesses, em matérias diferentes”.

Agora que chegou aqui…

Ao longo do último ano, o MUNDO ATUAL tem conquistado cada vez mais leitores.
Nunca quisemos limitar o acesso aos nossos conteúdos, ao contrário do que fazem outros órgãos de comunicação, e mantivemos sempre todas as notícias, reportagens e entrevistas abertas para que todos as pudessem ler.
Mas precisamos do seu apoio. Para que possamos, diariamente, continuar a oferecer-lhe a melhor informação, não só nacional como local, assim como para podermos fazer mais reportagens e entrevistas do seu interesse.
O MUNDO ATUAL é um órgão de comunicação social independente e isento. E acreditamos que para que possamos continuar o nosso caminho, que tem sido de sucesso e de reconhecimento, é importante que nos possa ajudar neste caminho que iniciámos há um ano.
Desta forma, por tão pouco, com apenas 1€, pode apoiar o MUNDO ATUAL.

Obrigado!

Sem comentários

deixar um comentário