26 Janeiro 2022, 23:29

Querido Pai Natal

Estudante de Direito | Diretora de Marketing da ELSA – Universidade do Porto

O desespero permanecerá e é real: segundo um estudo organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, três em cada quatro jovens ganham menos de 950€ e um terço quer sair de Portugal.

Para um quartanista da Licenciatura em Direito, o aproximar da época natalícia significa tudo menos felicidade, doces e prendas; todos aqueles que se encontram numa situação similar saberão que numa altura em que tudo deveria ser colorido, a visão está mais turva que nunca, perante o número infinito de palavras que temos de “comer” para prontamente “despejar” num pedaço de papel em janeiro.

Obviamente que esta sensação de desespero deverá ser atenuada com o período pós-licenciatura, repleto de sonhos e esperanças, que decerto se concretizarão em qualquer lugar, menos em Portugal.



O desespero permanecerá e é real: segundo um estudo organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, três em cada quatro jovens ganham menos de 950€ e um terço quer sair de Portugal.

É preocupante ver que cerca de 40% dos jovens consideram que a vida que levam está abaixo ou muito abaixo das expectativas que tinham. Ponto assente será dizer que por falta de formação académica não será, visto que a maioria dos jovens possuem mais do que um grau académico (a triste realidade de uma licenciatura já não ser suficiente e a triste ilusão de considerarmos que é um mestrado que nos vai salvar da precariedade).

Se é, em média, aos 22 anos que os jovens saem de casa dos pais, apenas 5% dos mesmos moram sozinhos na sua própria casa, sendo que a norma será mesmo viver em casa dos pais (aproximadamente 57% dos jovens) – claro que isto se trata de uma questão de facilidade e não de um problema, já que assim se poupa em deslocações para ir passar o Natal à casa de família.

O alerta está lançado, os factos são evidentes, só as medidas é que não são as melhores: exige-se um mercado trabalho menos conservador, menos fechado e mais empreendedor; perceba-se que exigir dez anos de experiência a alguém que acaba de terminar uma licenciatura é impraticável e que para as pessoas terem dez anos de experiência têm de trabalhar; perceba-se que a educação tem um preço e que oferecer o salário mínimo a um detentor de mestrado é quase como um insulto; perceba-se que todos temos direito a qualidade de vida e continuaremos a lutar por ela, só precisamos que nos deem as condições.

Neste Natal, pedimos apenas reconhecimento e valor, que é isso que muito falta neste País. Como diz o ditado, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”; se há dez anos a lista ao Pai Natal elencava o catálogo completo da Toys’R’Us, agora o mais indicado será optar por três caixas de Xanax, um emprego estável e quiçá, se não for pedir muito, um T1 a menos de 900€/mês.

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