14 Maio 2022, 03:41

Rasgar Silêncios através da escrita para sobreviver a traumas do passado

Susana Faria AdministratorKeymaster

«Rasgar Silêncios» com um lápis e uma folha de papel foi a forma que a associação CooLabora, de intervenção social, encontrou para ajudar as vítimas de violências doméstica e de género a dominar medos e traumas do passado. Através de oficinas de escrita que juntam todas as semanas, em grupo, oito mulheres que partilham medos, angústias e relatos de sobrevivência, o projeto já ajudou cerca de 50 pessoas a seguir em frente, livres do peso da culpa.

Todas as sessões das oficinas de escrita autobiográfica do projeto «Rasgar Silêncios» começam com um exercício de relaxamento, fundamental para «quebrar o gelo» entre o grupo de sobreviventes que quer esquecer o passado e, ao mesmo tempo, “livrar-se da culpa”.
As palavras começam a fluir e os cadernos em branco ganham vida através do passado e das memórias traumáticas que foram silenciadas há anos ou há um par de dias, “dando às vítimas uma nova visão sobre o seu percurso e impedindo que estas se foquem apenas em fragmentos dolorosos”.

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“Temos vários instrumentos e técnicas, como desenhos de teias de relações e da própria vida. Utilizamos mecanismos, como um manual de escrita, que ajudam no processo de escrita, já que não é fácil pegar num lápis e, do nada, expressar tudo o que sentimos num papel”, começa por explicar, ao Mundo Atual, a diretora da CooLabora.
Através do projeto «Rasgar Silêncios», inserido programa Cidadãos Ativos, da Fundação Gulbenkian e da Fundação Bissaya Barreto, a associação, que dispõe também de um gabinete de apoio a vítimas de violência doméstica, utiliza a escrita autobiográfica como forma de empoderamento das mulheres.

Luís, porque me fizeste sofrer tanto desde o dia do nosso casamento? Logo no primeiro dia, quando me violaste várias vezes, sem querer saber do meu sofrimento. Lamento, mas é como me sentia sempre que te apropriavas de mim. Mesmo quando estava a amamentar durante a noite, não respeitavas esse momento tão íntimo. De manhã a minha almofada estava molhada de lágrimas. Durante o dia aterrorizavas-me e aos nossos filhos, batias-nos sem motivo, só porque podias e te apetecia. Nunca consegui sequer ver o meu ordenado, porque eras tu que ias recebê-lo. No dia do nosso casamento lembro-me de ter pensado: quem eu era há umas horas, agora, sou um farrapo, um joguete nas tuas mãos. Deixaste-me com 4 filhotes, a única coisa boa do nosso casamento. Hoje tenho 81 anos e sou muito feliz rodeada e mimada por eles.

Manuela
(nome fictício)

“Esta é uma intervenção a longo prazo, para combater os traumas e as memórias menos boas. O projeto trabalha essas memórias, reflete sobre as experiências, no sentido de ajudar estas mulheres a superarem os fantasmas do passado. Para isso, são usadas as ferramentas da escrita autobiográfica”, sublinha ainda.
Para Graça Rojão a escrita é um instrumento transformador e poderoso, que favorece o autoconhecimento e ajuda a organizar os acontecimentos e “ao ver estas mulheres escreverem sobre a vida, foi muito interessante perceber que, para além dos momentos dolorosos e de violência, também tiveram experiências e momentos que foram bons”.

Oficinas de escrita semanais

As oficinas de escrita, que se realizam todas as semanas, ao final da tarde, na Covilhã, são compostas por um ciclo 6 sessões que, por norma, “acabam por ser mais porque as mulheres nestas situações têm vidas marcadas por uma grande instabilidade e sentem necessidade de aumentar o número de participações”.
Cada sessão obedece a uma estrutura e é sempre pedido às participantes que escrevam sobre diferentes temas. Para estas mulheres, escrever sobre a própria história torna-as muito mais fortes e permite-lhes ver além dos acontecimentos traumáticos vividos.
“As sessões são emocionalmente muito exigentes e quando terminam, precisamos todas, incluindo nós, as responsáveis, de um algum tempo para recuperar energia. Há relatos muito perturbadores e, depois de escritos nos cadernos, permitimos que sejam lidos para todo o grupo. Quando as vítimas não se sentem confortáveis para ler o que escreveram, podem falar de como se sentiram ao preencher aquelas folhas”, destaca.

Tinhas que dar o exemplo de homem perfeito que mantinha um bom casamento. Eu era tua e de mais ninguém. Nem família, nem amigos, nem colegas, nem conhecidos, só tua. Nunca me deixaste trabalhar. Ficava em casa a cuidar da filha. Algumas das vezes que fui agredida fugi para casa dos meus pais, mas ia para casa novamente, pois não tinha como nos sustentar. Naquele dia, quando me apontaste a arma pensei que era o último da minha vida. Saí de casa com a roupa do corpo e nunca mais voltei.

Maria
(nome fictício)

Projeto já ajudou cerca de 50 mulheres

Além das oficinas de escrita, que já permitiram a cerca de 50 mulheres «Rasgar Silêncios», o projeto inclui também um teatro multimédia, cujo guião partiu dos relatos das sobreviventes, e ações de formação de profissionais de primeira linha com intervenção junto das vítimas de violência doméstica e de género.
Mentes limpas e organizadas, feridas saradas, e as sessões terminam com uma nova sessão de relaxamento, “com exercícios propostos pelas colaboradoras ou pelas participantes, que, por vezes, trazem ideias para se libertarem de toda a carga emocional a que estiveram sujeitas”.

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