09 Setembro 2022, 14:11

Hoje é o dia. – Sandra Januário

Psicóloga Clínica | Autora de Literatura Infantil

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Em número suficiente para amaldiçoar a tecnologia e o universo, enquanto me convenço que não fossemos parte inteira da mesma história, de modo nenhum atravessaria a cidade num carro com o ar condicionado avariado em tarde de jogo do Benfica, precisamente quando a sombra do pinheiro manso e o último capítulo do livro que desvenda o assassino me reclamam.

Pertences a uma rara linhagem que resolve os percalços da vida num esconderijo imperscrutável difícil de encontrar, que transformam tempestades em mergulhos no mar e alicerces de carácter, que entendem a fragilidade do tempo e recusam viver pela metade.

Possuis uma interioridade esculpida na força das marés e o gosto que tens por ti é o maior ensinamento que me podes oferecer.

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No teu habitat natural sacodes o peso das responsabilidades num cortejo e namoro assumido com as ondas perfeitas, enquanto respiras água e sal e invocas os Deuses do universo.

Não fosse por ti, asseguro-te, jamais abandonaria a sombra do pinheiro manso do meu jardim, o chá gelado, a raiz dos livros sublinhados para enfrentar uma praia apinhada no pico do verão em dia feriado.

Uma hora para chegar, metade de outra para estacionar, no que me pareceu ser uma volta completa aos anéis de Saturno e à resistência da minha alma outonal.

No epicentro de guarda-sóis incontáveis, de olhos fixos no horizonte, amaldiçoou-o a lava que me queima os pés e o suor que corre em rio e cola o vestido à pele.

Fazes culto da transparência que se confunde com a cor do mar e numa conspiração ancestral e solene alimentas o espírito mais livre e desapegado que conheço, no encalço de seres pessoa boa e acionista maioritário de um tempo onde se cumprem os sonhos e se caminha por mil e uma noites.

Esquecido do mundo e no meio do oceano, arrefeces as preocupações e sobressaltos que irromperão alugueres lá pelo Inverno frio, única altura do ano que lhes conferes estrada para andar e mesmo assim em formato de pó e quase nada.

Não fossemos parte inteira da mesma história, nunca abandonaria o conforto de cambraia do algodão da minha alma velha para desbravar caminho entre o cheiro transbordante a protetor solar e o sabor clássico a bolas de berlim.

Com quarenta anos de idade já te dedicavas à numismática, abdicavas do tom bronzeado que permanece para além dos dias estivais, dos tubos que te parecem engolir e das batidas que te viram do avesso, para me resgatares do labirinto indecifrável de toalhas estendidas, baldes e pás que não deixam espaço para um suspiro, quanto mais para te alcançar.

Tenho uma inveja boa da tua bolha, uma espécie de espaço impoluto em que só cabe feliz, ignorando que para o comum dos mortais a felicidade dá muito trabalho e amiúde tropeça no peso das escolhas certas a reboque de alguma sorte e discernimento.

O Verão que vive perene em ti não só limpa o céu de nuvens e mágoas, como não há artrite ou rugas que lhe chegue. Desconfio que te conserva tal qual como formol e nele permanecerás em voo livre sem receio de qualquer embate.

Quantas vezes te liguei?

Em número suficiente para amaldiçoar a tecnologia e o universo, enquanto me convenço que não fossemos parte inteira da mesma história, de modo nenhum atravessaria a cidade num carro com o ar condicionado avariado em tarde de jogo do Benfica, precisamente quando a sombra do pinheiro manso e o último capítulo do livro que desvenda o assassino me reclamam.

Por fim, quando os peixes e sereias te devolverem à terra, vais puxar-me para um abraço, desalinhar-me o cabelo aprumado e num sorriso salgado, dirás: – No mar não há rede, maninha!

Pertences àquela rara espécie de pessoas que não se escondem atrás de uma consciência autorizada para se ser elegantemente feliz, que ri de dentro para fora e que confere às lágrimas o mesmo peso em ouro da gargalhada.

Hoje é o dia.

Logo que abandones a água e desenhes os pés na areia molhada, vais rir e chorar em igual e desmesurada medida, porque o teu filho nasceu e tal como sonhaste, cheira a maresia, tem corpo de poema e lonjura de eternidade.

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