29 Janeiro 2022, 10:42

Serão da província

Daniela Maia Autor
Administradora Hospitalar

Esta não, coitadinha, ainda vinga. E esta? Muito grande. E aquela? É um crime. Olha, cá está. Esta giesta. Mete vista e para o efeito dá.

Já se sabe que, dos finados ao Natal, os dias são curtos e depressa se faz noite. É uma certeza de borda de água, mas importantíssima para orientar a vida. Se apanharmos a carreira ao fim da manhã já só chegamos à terra de noite. Mudamos em Barcelos. Atenção que é dia de feira. O carro vai cheio daí.
Um olá na casa Hilário, quase em frente à garagem de recolha, e estamos de novo em viagem. Ninos, podeis dar um jeitinho? Gosto de ir bem amarradinha, num bá cair. Ides para donde? Ah, sois da madrinha Teresa? Num conheço eu outra coisa! É aqui que começa o Natal.

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Tanto frio! Os dedos enregelados, escondidos nos bolsos dos casacos de cidade envergonham-se com renovada energia de quem carrega os cestos de mais uma feira feita. Tendes frio? Não, já não há frio.
Falta pouquinho. Prepara a casa!
Acorda cedo e limpa a casa como se limpasses a alma. Abre as janelas, deixa entrar o sol e o cheiro a eucalipto molhado. Embrulha as gargalhadas da manhã em cevada fresca e buchas com planta. Repete.
Já podeis fechar as janelas. Num tarda nada escurece. Tapa essas frinchas e fecha as portadas. Como dizeis? Calafetar? Isso. Para que num entre frio. Improvisa com mantas.
O lume. Na cozinha, as brasas continuam a moer e a aquecer, muito lentamente, a casa. A mistura de cheiro a refogado com maçãs porta da loja. O aconchego. Ainda estamos gelados, mas o frio já não tolhe a alma. Ao centro da mesa o tacho de ferro convida à partilha. Quantos somos? 15? 20? Há cadeiras? Antes que alguém responda batem à porta. Sente-se com a gente! Há sempre cadeiras.
Quase três horas, não tarda escurece. Há que ir à bouça arranjar a árvore. De galochas, procuramos no carreiro uma vítima já condenada. Não se cortam pinheiros sãos. Esta não, coitadinha, ainda vinga. E esta? Muito grande. E aquela? É um crime. Olha, cá está. Esta giesta. Mete vista e para o efeito dá. Felizes com a escolha, regressamos.
O pinheiro arraçado é entalado entre os pesados reposteiros e iluminado por uns enfeites improvisados e outros rejeitados das casas da cidade. Fica tão bonito!
O braseiro cheira agora a canela invade toda a casa. Revigora os corpos.
Ninas, Já terminastes? Os formigos estão atrasados. O mulherio instala-se na cozinha. Umas debulham as nozes, as outras partem o pão e há sempre alguém a recontar a história do João mudo, a quem a Senhora da Aparecida amparou com o regaço salvando de morte certa.
Quantos somos à mesa? 20? 25? Não está a esquecer ninguém? À cautela põe mais umas couves! Dá para o farrapo velho que é o que sabe melhor. E vai á adega buscar o vinho!
E saímos, sem credo conhecido, em peregrinação ao adro da igreja onde festejamos esse momento mágico em que voltamos a ser meninos. E, amarrados num abraço, de repente já foi Natal.
A todos Vós um abraço amarrado, neste dia encantado das coisas simples.

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