29 Junho 2022, 23:45

“Só dei valor à saudade quando saí da minha zona de conforto”

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Beatriz Teixeira partiu à descoberta de uma vida melhor para si e para os seus, em janeiro de 2014, numa época em que a conjuntura em Portugal era desfavorável, devido a uma grave crise económica instalada por toda a Europa. A técnica de contabilidade, chegou, sozinha e sem emprego, à vila de Grindelwald, localizada no Cantão de Berna, na Suíça, onde conseguiu colocação, quase de imediato, tendo começado a trabalhar num hotel, como empregada de quartos. Beatriz garante que, apesar das saudades da família, sobretudo dos filhos, que vivem com o pai em Portugal, e que também, esporadicamente, a visitam, gosta de viver na pequena vila alpina, onde se sente acarinhada e próxima a muitos portugueses. “Quando saio à rua tenho sempre uma saudação, um bom dia, um aceno de alguém”, diz, salientando, no entanto, que o regresso a Portugal está planeado para os próximos cinco anos.

Porque decidiu emigrar?
Decidi fazê-lo porque Portugal estava a viver uma grave crise económica e eu, com 47 anos, não estava a conseguir arranjar trabalho, seja na minha área (técnica de contabilidade) ou noutra qualquer. Com três filhos estudantes, e sendo dois menores de idade, estava muito difícil conseguir fazer face às despesas.
Nunca tinha ponderado a emigração, mas como tinha um contacto aqui na Suíça, surgiu a oportunidade e aproveitei.

Como tem sido a experiência?
Tem sido extraordinariamente boa. Aqui os salários são ótimos, embora os custos também sejam elevados, nada é barato. É um país seguro e com paisagens únicas. O facto de me ter fixado numa localidade pequena, onde vivem muitos portugueses, ajuda na vida quotidiana, acabando por dar a sensação de que estamos em casa. Sempre que saio à rua tenho uma saudação, um bom dia, um aceno de alguém.
Apesar de estar longe da família, gosto de cá viver.

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Como se viveu aí a pandemia?
Por aqui, a pandemia passou ao de leve. A nível económico, a Suíça vive muito de turistas e, daí , a pandemia não ter sido tão radical como em Portugal, por exemplo. Cada cantão decide que regras aplicar para fazer face à pandemia e, atualmente, está tudo liberado, já nem máscara se usa.
Apesar de tudo, em 2020, tive de suspender uma viagem, pois não era permitido entrar em Portugal. Mas foi a única vez. A partir daí, nunca mais tive de adiar viagens e fui sempre duas vezes por ano, aplicando as regras exigidas.

Quais os maiores desafios pessoais e profissionais?
Quando cheguei a Grindelwald não tinha emprego. Esse foi um desafio difícil. Vim com a promessa de realizar provas em dois estabelecimentos de hotelaria locais, mas acabei por não ficar em nenhum. Entretanto fui chamada por outro hotel, onde trabalhei durante cerca de cinco anos. Depois disso, mudei para outro, na mesma localidade – o Hotel Aspen, onde ainda exerço a minha atividade profissional como empregada de quartos e de tratamento de roupas, e no qual me sinto em família. Outro dos grandes desafios é estar longe dos meus três filhos. Eles vieram viver comigo, em 2015, mas os mais velhos voltaram para Portugal, ao fim de dois anos. A mais nova, a Francisca, começou no 7.º ano e passou sempre com excelentes notas. Quando completou o 9.º ano, foi convidada a fazer cursos paralelos aos estudos, como todos os estrangeiros. Apesar das excelentes notas, para um adolescente torna-se desmotivante estudar ao mesmo tempo que realiza esses cursos, que são como empregos. Só têm dois dias de escola, os restantes são de trabalho, tal como um adulto. Era muito cansativo mas, apesar de tudo continuou com excelentes notas. Em 2021, decidiu voltar para Portugal para seguir o sonho de ser enfermeira. Obteve a equivalência, com média de 17 valores e está a preparar-se para entrar na faculdade de enfermagem. Assim, desde agosto de 2021 que fiquei sozinha.

Como se gere o facto de estar longe da família e dos amigos?
No início custa imenso. Vim sozinha e não foi fácil, quer a adaptação, quer o facto de estar longe, principalmente dos meus filhos. Vale o Whatsapp para fazer vídeo chamadas e, assim, matar saudades. Só dei valor a essa palavra (saudade) quando saí da minha zona de conforto.
Há dias muito difíceis, em que a lágrima cai e em que a dor no peito é imensa. No entanto, temos de ser fortes, até porque sabemos que estamos longe com um objetivo: melhorar a nossa qualidade de vida e a da família. Esconde-se a dor dos filhos para que eles não sofram, também.

Do que sente mais falta?
Da família sem dúvida: filhos, companheiro, pais, irmãos, sobrinhos, amigos e vizinhos. Também tenho muitas saudades da minha casa e de tudo que lá deixei , as minhas coisas.

Vem a Portugal com que frequência (ou vinha antes da pandemia)?
Vou sempre duas vezes ao ano, uma em abril, outra em novembro. Apesar de tudo só adiei uma das minhas viagens.

Está nos seus planos regressar, definitivamente, a Portugal?
Sim, se tudo correr bem fico por aqui mais cinco anos. Tenho 54 e não me vejo a trabalhar com mais de 60 anos em hotelaria, que é um trabalho bem árduo.

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