24 Janeiro 2022, 10:48

Sudão: Militares não se opõem às consultas da ONU – Enviado especial

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Cartum, 10 jan 2022 (Lusa) – O chefe da missão das Nações Unidas no Sudão, Volker Perthes, disse hoje que a cúpula militar que perpetrou o golpe de Estado em outubro “não se opõe” à sua iniciativa para resolver a crise.


Numa conferência de imprensa em Cartum, a capital do Sudão, Perthes renovou o seu apelo aos vários setores da sociedade civil deste país africano para que se envolvem na iniciativa, que será promovida pelas Nações Unidas, e que consiste em amplas consultas com vista à concretização do plano de paz.


“Chegou a altura de parar com a violência no Sudão e entrar num processo consultivo para completar o período de transição”, disse Perthes, notando que a ONU atuará como “facilitadora das consultas entre os homens e as mulheres sudanesas para alcançar um consenso nacional”.


O enviado das Nações Unidas a este país africano disse, citado pela agência espanhola de notícias, a Efe, que a cúpula militar “não se opõe” a esta iniciativa, apesar da oposição do Partido Comunista e da partido Congresso Nacional, do antigo ditador Omar al Bashir, cuja deposição em 2019 deu início a um processo de transição, depois de 30 anos de autoritarismo.


Perthes assegurou, ainda assim, que a sua missão escuta as exigências dos manifestantes sudanesas, que não apoiam um pacto com os militares, mas “ninguém disse que não à ONU, por isso as iniciativas podem ter êxito”.


No entanto, uma ativista dos comités de resistência do Sudão, que têm convocado protestos contra o golpe de Estado, diz que os manifestantes rejeitam a iniciativa das Nações Unidas de lançar um “processo político intra-sudanês” para resolver a crise política.


Em declarações à Lusa por telefone a partir de Cartum, Gihan Eltahir disse que os manifestantes que têm saído às ruas desde o golpe de Estado de 25 de outubro têm enviado “uma mensagem clara à comunidade internacional e à ONU”: “Não é isso que os sudaneses querem, é exatamente o oposto do que a rua quer”.


Além dos comités de resistência, outras partes civis reagiram com pouco entusiasmo ao anúncio de Perthes.


“Estamos prontos a participar nas conversações, na condição de que o objetivo seja retomar a transição democrática e suprimir o regime do golpe de Estado, mas estamos contra se estas negociações visarem legitimar o regime”, disse à France-Presse um porta-voz das Forças da Liberdade e Mudança, coligação de grupos civis e rebeldes, incluindo a Associação de Profissionais Sudaneses, Iniciativa Não à Opressão contra as Mulheres, e os comités de resistência sudaneses que em 2019 ajudaram a derrubar Al-Bashir.


No domingo, a Associação de Profissionais Sudaneses declarou que “rejeita completamente” essas negociações, noticiou também a agência francesa.


Na conferência de imprensa, Perthes disse ainda que enviará convites oficiais às forças políticas interessadas na iniciativa para dar início às consultas, sobre as quais informará o Conselho de Segurança da ONY na próxima reunião.


No sábado, a ONU anunciou esta iniciativa de mediação no Sudão, e logo no domingo vários grupos opositores do golpe de Estado convocaram uma manifestação, da qual resultaram pelo menos dois mortos, dezenas de feridos e quase 90 detidos.


Os sudaneses têm ido para as ruas de maneira frequente para exigir o regresso de um governo civil, mas a repressão por parte das forças de segurança já provocou, até agora, a morte de 63 manifestantes.


O Sudão vive um impasse político desde o golpe militar de 25 de outubro de 2021, que ocorreu dois anos após uma revolta popular, protagonizada já então pelos comités de resistência, para remover o autocrata Omar al-Bashir e o seu Governo islamita em abril de 2019.


Sob pressão internacional, os militares reinstalaram em novembro o primeiro-ministro deposto no golpe, Abdalla Hamdok, para liderar um Governo tecnocrata, mas o acordo não envolveu o movimento pró-democracia por detrás do derrube de Al-Bashir.


Desde então, Hamdok não conseguiu formar Governo perante protestos incessantes, não só contra o golpe de Estado, mas também contra o seu acordo com os militares e acabou por se demitir em 02 de janeiro.



MBA (FPA) // JH


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