25 Janeiro 2022, 10:47

Talibãs no poder causam crise de direitos humanos no Afeganistão – HRW

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Lisboa, 13 jan 2022 (Lusa) — A tomada do poder pelos talibãs e a retirada das forças estrangeiras, nomeadamente norte-americanas, do Afeganistão, em 2021, provocou uma “crise humanitária e de direitos humanos” no país, considerou hoje a Human Rights Watch (HRW).


No seu relatório anual hoje divulgado, a organização de defesa dos direitos humanos classifica de “abrupta e crescente” a crise causada pelo regresso do movimento fundamentalista ao poder no Afeganistão, que afetou os direitos das mulheres e a liberdade de expressão.


“Os talibãs fizeram recuar imediatamente os avanços dos direitos das mulheres e a liberdade de imprensa”, indica.


Logo “nas semanas que se seguiram à tomada do poder, as autoridades talibãs anunciaram uma série de políticas e regulamentos que reverteram os direitos das mulheres e das raparigas”, incluindo o acesso ao emprego, à educação e à reunião pacífica, refere o relatório.


“A maioria das escolas secundárias para raparigas foi fechada e as mulheres proibidas de trabalhar para o governo e em muitas outras áreas”. Em muitas partes do Afeganistão foi proibido “o trabalho humanitário feito por mulheres”, adianta.


A HRW nota que, mesmo “quando as mulheres são autorizadas a voltar ao trabalho, enfrentam exigentes regras de segregação de género” e que, desde setembro, estão sujeitas ao novo Ministério para a Propagação da Virtude e Prevenção de Vícios, que substituiu e eliminou o Ministério dos Assuntos da Mulher.


O novo ministério está encarregue de “fazer cumprir as regras sobre o comportamento dos cidadãos, incluindo a forma como as mulheres se vestem e a proibição de saírem de casa desacompanhadas”, acrescenta.


Além disso, os talibãs decidiram avançar com a detenção de inúmeros jornalistas e “muitos meios de comunicação fecharam ou reduziram drasticamente as suas reportagens, em parte porque muitos jornalistas fugiram do país”.


A HRW sublinha ainda que o governo formado pelos radicais islâmicos “não incluiu mulheres nem ministros fora das fileiras talibãs”.


Os Estados Unidos e as forças da NATO iniciaram a fase final de retirada do Afeganistão em maio do ano passado, no âmbito do acordo assinado em fevereiro de 2020 entre Washington e os talibãs, o que fez aumentar as ações militares dos insurgentes nas 34 províncias do país.


Os acontecimentos militares sucederam-se com invulgar rapidez e o fim da última guerra no Afeganistão ficou marcado pela retirada desordenada das forças norte-americanas (após 20 anos no país) e pela surpreendente conquista da cidade de Cabul pelos talibãs no dia 15 de agosto de 2021.


O caos que se gerou na capital afegã durante a reconquista vitoriosa – e sem resistência – dos talibãs, pôs em evidência o vazio de poder por parte do regime apoiado pelas forças internacionais, vistas por muitos como ocupantes estrangeiros durante duas décadas.


Milhares de civis afegãos em pânico tentaram abandonar o país a bordo dos aviões militares dos Estados Unidos e de países aliados.


Durante a operação de retirada morreram espezinhados em acidentes ou foram vítimas de atentados 180 civis afegãos e 13 soldados dos Estados Unidos, que tiveram de reforçar a zona do aeroporto militar de Cabul.


 “A vitória dos talibãs levou a que o Afeganistão passasse de uma crise humanitária para uma catástrofe, com milhões de afegãos em grave insegurança alimentar devido à perda de receitas, à escassez de dinheiro e ao aumento do custo dos alimentos”, indica a HRW no relatório.


Nos seis meses anteriores à tomada do poder pelos talibãs, refere, os combates entre as forças do governo e o movimento fundamentalista “causou um aumento acentuado do número de vítimas civis alvo de explosivos improvisados, morteiros e ataques aéreos”, tendo a ONU avançado que as forças talibãs foram responsáveis por quase 40% das mortes e ferimentos de civis nos primeiros seis meses de 2021.


O relatório anual da Human Rights Watch analisa a situação de direitos humanos em cerca de 100 países.



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