11 Agosto 2022, 00:06

Timor-Leste/20 anos: PR timorense pede unidade nacional e diz que não vacilará

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Tasi Tolu, Timor-Leste, 19 mai 2022 (Lusa) — José Ramos-Horta comprometeu-se hoje, minutos depois de ser investido no cargo, a ser o Presidente de todos os timorenses, sem “vacilações, dúvidas ou subterfúgios”, apelando à unidade nacional.


“Não represento apenas aqueles que em mim votaram. Todos os timorenses que comigo partilham o amor a esta terra e a nossa história estão no meu pensamento”, disse Ramos-Horta na sessão solene do Parlamento Nacional que decorreu no recinto de Tasi Tolu, nos arredores de Díli.


No seu primeiro discurso como chefe de Estado — cargo que já ocupou entre 2002 e 2007 — Ramos-Horta recordou a história do país, as dificuldades da luta pela independência, restaurada há 20 anos neste mesmo local, e sublinhou os desafios do futuro.


“Tenho a honra de tomar posse num aniversário pleno de significado para a nossa história nacional. Passados vinte anos, é importante relembrar o extraordinário exemplo de unidade e comunhão do povo timorense e dos seus líderes durante o período da Luta pela Independência”, afirmou.


“Hoje, mais do que nunca, devemos estar plenamente conscientes que só em unidade conseguiremos alcançar os objetivos de desenvolvimento que nos propomos”, enfatizou, considerando essencial proteger a “democracia dinâmica, mas ainda vulnerável” do país.


Comprometeu-se a promover o diálogo intrainstitucional, a salvaguardar os valores constitucionais e os ligados à identidade nacional, “que encontram raiz no heroísmo, no imaginário-mágico, na simplicidade, na humildade, na generosidade, na abertura, no sentido de inclusão e na inabalável fé do povo timorense”.


“Assim será também durante o meu mandato, em espírito da mais ampla unidade possível, estando conscientes e avisados dos aproveitamentos das nossas vulnerabilidades”, afirmou.


Por isso, pediu a mobilização da boa vontade “genuína de todos os timorenses”, convocando-os a unir esforços com um “espírito de unidade e inclusão, na construção do país pelo qual tantos lutaram e deram as suas vidas”.


O Presidente timorense recordou as muitas conquistas das últimas décadas, depois de 1999, em que o país ficou reduzido a “ruínas, a escombros”, com o tecido económico e comercial nacional “praticamente inexistente”.


Entre as melhorias destacou o aumento da esperança média de vida, dos 58 para os 70, da eletrificação a chegar a mais de 96% da população, do desenvolvimento da rede de infraestruturas nacionais e das grandes melhorias nos setores sociais.


Apesar disso, porém, alertou para os “grandes desafios em setores estratégicos”, nomeadamente “agricultura e produção alimentar, segurança alimentar e nutrição, saúde, água potável e saneamento, educação pré-escolar e formação técnico-profissional e criação de empregos”.


Entre as prioridades, “elencou eliminar a subnutrição, reduzir a extrema pobreza (que afeta 40% da população) e a exclusão social e combater a corrupção”. 


Endereçando um abraço ao “povo amado” de Timor-Leste, Ramos-Horta aludiu ao “chão sagrado” do recinto de investidura, Tasi Tolu — onde em 12 de outubro de 1989 o papa João Paulo II celebrou missa — para que o disse ser um ato solene que “reconfirma a vitalidade da jovem democracia”.


Ramos-Horta recordou com “especial saudade”, as memórias dos pais e irmãos, “mártires da luta pela independência nacional” e agradeceu à família e amigos que sempre o acompanharam, dedicando uma mensagem especial aos que morreram durante a luta contra a ocupação.


“Curvo-me em sentida homenagem a todos os timorenses que perderam as suas vidas, assim como aqueles que ainda vivem com a dor da memória dos seus pais, irmãos e irmãs, tios e tias, sobrinhos e netos, primos e amigos perdidos durante o trágico período de conflito”, disse.


“Curvo-me perante a memória do sempre eterno saudoso Nicolau Lobato, fundador e organizador das gloriosas Falintil, cujos ensinamentos e o seu esplendoroso exemplo inspiraram e inspiram gerações de Timorenses. Curvo-me ante a memória dos jovens mártires do 12 de Novembro”, disse, recordando o braço armado da resistência e as vítimas do massacre de Santa Cruz, em 1991.


E depois outros nomes consagrados da luta já desaparecidos – incluindo os bispos Basílio do Nascimento, Martinho da Costa Lopes e Ricardo da Silva, o padre João de Deus, os irmãos Carrascalão e Fernando Lasama Araújo, entre muitos outros -, honrando o jornalista Max Stahl que deixou “o povo de Timor-Leste em luto” e que faz parte “da memória histórica” do país.


Elogiou também outros ainda vivos e que ocupam lugares de relevo no país, como Xanana Gusmão ou Taur Matan Ruak.


O Presidente da República dirigiu ainda mensagens ao seu antecessor, por ter, como outros candidatos presidenciais, contribuído para o “enriquecimento do debate nacional e para a consolidação” da democracia.


Ramos-Horta, que foi durante décadas a principal voz internacional da luta pela autodeterminação, alcançada em 30 de agosto de 1999, reconheceu o importante papel dos “países amigos” e da sua “generosa solidariedade”.


“Caminharam com o nosso povo desde os longos anos de trevas até chegarmos ao cume do Monte Ramelau, como país independente e em paz. Deram-nos a mão quando tudo era escuro, deram-nos de comer quando tínhamos fome, deram-nos de beber quando tínhamos sede. O povo de Timor-Leste jamais esquecerá”, afirmou.


 


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