19 Junho 2021, 03:38

«Um dia vamos comprar um bilhete só de ida» – Ana Judite Costa

Ana Judite Costa tem 29 anos e vive há 4 em Zurique. Tem formação nas áreas de Teatro, Tradução e Marketing Digital, mas trabalha como Supply Planner (Planeadora de Compras) na cidade onde, garante, já tem também uma família. Natural de Vizela, Ana Judite Costa conta-nos que os “momentos em família, os abraços e os amigos” são o mais difícil de suportar, mas o “truque é ter em mente a experiência enriquecedora” que está a viver juntamente com o noivo que a acompanha nessa aventura que começou em 2017. O regresso a Portugal está no horizonte de ambos, mas sem data definida. Será, revela, “quando fizer sentido”.

Porque decidiu emigrar?
Eu e o meu noivo estávamos a morar juntos há dois anos e já há muito tempo que o tema “ter uma experiência internacional” espreitava sorrateiramente nas nossas conversas. Nenhum de nós tinha feito Erasmus e tínhamos essa vontade. Estarmos estagnados a nível profissional fez com que surgisse o timing perfeito para a mudança. O plano era emigrar para Dublin por um ano. Um dia ele disse-me “enviei um currículo para Zurique”. E já lá vão quatro anos.

Por que países já passou?
Em viagem? Espanha, Itália, Reino Unido, França, Alemanha e Croácia. De malas e bagagens só pela Suíça.

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Como tem sido a experiência em Zurique?
Zurique é uma cidade muito caricata, um centro urbano super organizado. A primeira coisa que fazemos é uma inscrição numa escola para aprender alemão, mas cedo percebemos que aqui não se fala alemão, mas sim um dialeto próprio. E o mais engraçado é que se formos para Berna, por exemplo, o dialeto muda. Já para não falar que como línguas oficiais, além do alemão, temos o francês, o italiano e o romanche. Muitas são as vezes em que leio as instruções dos rótulos dos alimentos em francês. Muitas pessoas partilham que Zurique é uma cidade difícil para fazer amigos, mas eu sou uma exceção à regra, pois encontrei a minha «família» de cá muito cedo. Zurique é perfeita para passear ao pé do lago, dar um mergulho, visitar um Museu… tem o melhor queijo e o melhor chocolate. Já a vi pintada de flores e carregada de neve. Tenho a certeza que no dia que voltar para Portugal levo um bocadinho de Zurique comigo.

Quando estávamos a fazer a nossa lista de prós e contras, um grande pró era a oportunidade de viajar e de conhecer o mundo.

Como se vive aí esta pandemia?
O que sinto é que todos tentam fazer o seu melhor, sem saber muito bem o que estão a fazer. Esta pandemia veio mostrar que ninguém está 100% preparado para tudo. Aqui todos os prédios têm um Bunker, mas demoraram uma eternidade a tornar o uso de máscaras obrigatório. Em comparação com Portugal há menos regras. Os números não descem nem sobem muito. E a salvação é que além dos hospitais terem ótimas condições, culturalmente, as pessoas não são tão dadas a ajuntamentos.

Quais são os principais desafios pessoais e profissionais?
Os desafios pessoais passam exclusivamente pela gestão das saudades. Em termos profissionais há dois caminhos: se a pessoa tem uma formação numa área com muita procura pode encontrar aqui ótimas oportunidades de trabalho. Caso contrário, é muito difícil. Porque sentimos que estamos a participar numa corrida em que só nos é permitido dar o arranque mais tarde e temos as barreiras da língua pelo caminho. Mas uma coisa é certa, em qualquer dos cenários é-nos permitido ter uma vida confortável.

Como gere o facto de estar longe da família e dos amigos?
Vou gerindo. Há dias em que consigo me abstrair do facto de estar tão longe, há outros em que sinto que moro do outro lado do mundo. Como sempre ouvi dizer: não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. O truque é ter em mente a experiência enriquecedora que estou a viver, e aproveitar ao máximo todos os momentos que estou com a minha família e amigos.

Do que sente mais falta?
Dos momentos em família, dos abraços dos amigos e de me sentir “em casa” onde quer que vá.

Vem com frequência a Portugal (ou vinha antes da pandemia)?
Quando estávamos a fazer a nossa lista de prós e contras, um grande pró era a oportunidade de viajar e de conhecer o mundo. Estaríamos a viver a dez minutos de um dos maiores aeroportos da Europa. A realidade? Antes da pandemia, sempre que tínhamos férias tentávamos ir a Portugal. Somos, de facto, um casal de planos firmes.

Está nos seus planos regressar definitivamente a Portugal?
Sim. Estes quatro anos têm sido uma aventura cheia de momentos bons e maus. Mas uma coisa mantém-se constante: sempre que vamos a Portugal firmamos a certeza de que um dia vamos comprar um bilhete só de ida como fizemos em 2017, mas com a «Partida» e a «Chegada» invertidas. Quando? Quando fizer sentido.

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