04 Julho 2022, 00:07

Veículo autónomo substitui-se a meios humanos e caracteriza fundo do mar em Matosinhos

LUSA Autor
Agência de notícias de Portugal

Matosinhos, Porto, 21 mai 2022 (Lusa) — Nas águas portuárias de Matosinhos, o veículo autónomo de superfície ORCA, desenvolvido pelo CEiiA — Centro de Engenharia e Desenvolvimento, substitui-se aos meios humanos, levando a cabo uma das missões para a qual foi concebido: a caracterização do solo marítimo.


Na marina de Leixões, em Leça da Palmeira, concelho de Matosinhos, no distrito do Porto, o veículo autónomo de superfície, que os investigadores do CEiiA apelidaram de ORCA, monitoriza as profundezas das águas, substituindo um trabalho para o qual eram destacados meios humanos.


Ziguezagueando pelas águas, a embarcação que pesa 450 quilogramas vai repetindo um movimento semelhante ao de cortar a relva, enviando, em tempo real, a informação que recolhe para a DORY, nomenclatura atribuída ao sistema que em terra acompanha toda a ação.


A solução começou a ser pensada e desenvolvida há cerca de cinco anos. À época o propósito era simples e só um: “usar a robótica para monitorizar o oceano”, disse à Lusa Tiago Rebelo, diretor para o Espaço e Engenharia Oceânica do CEiiA.


Se inicialmente os investigadores se debruçaram no desenvolvimento da estrutura da embarcação, rápido focaram a atenção no “cérebro”, elemento que atribui “inteligência, controlo, navegação e autonomia” ao veículo.


Desenhado para operar em águas interiores, bem como em zonas costeiras e zonas protegidas, o veículo tem “múltiplos propósitos” e responde a “diferentes desafios”, servindo para monitorização ambiental, cartografia oceânica, segurança e vigilância.


Pelas águas de Leixões, a missão do ORCA por estes dias é a de fazer a batimetria e caracterização do solo marinho, mas as finalidades deste veículo não se esgotam na cartografia oceânica.


O seu “cérebro”, que carrega até 100 quilogramas de sensores, pode ser incumbido de monitorizar a qualidade da água, dos ecossistemas, das alterações climáticas, mas também de proteger zonas de fronteiras ou de águas, e infraestruturas como barragens, oleodutos e gasodutos.


“O operador define a missão, o que é que o veículo vai fazer, por onde tem de passar, o que tem de recolher e depois o veículo faz toda essa missão de forma autónoma”, esclareceu Tiago Rebelo.


Através de sensores e de uma câmara de 360 graus incorporada no veículo, o operador mantém, em cada missão, o controlo das operações, que podem durar entre 12 e 24 horas, mediante o número de baterias que o ORCA carrega consigo.


Ainda que o CEiiA não pretenda ser “um estaleiro para o crescimento destas embarcações”, o veículo autónomo de superfície está “comercialmente disponível”, demorando o centro entre dois e três meses a fazer a sua montagem e entrega.


Enquanto decorre o processo de comercialização do ORCA, os investigadores do centro sediado em Matosinhos focam-se no que realmente “sabem fazer”: “engenharia e desenvolvimento aplicado”, sendo o objetivo agora “escalar a solução”.


“Criamos uma capacidade que nos permite passar deste tipo de veículos autónomos de superfície para veículos em profundidade e embarcações maiores para explorar mar aberto”, adiantou Tiago Rebelo, ilustrando que essa capacidade também se faz notar no crescimento da equipa, que passou de cinco para cerca de 77 engenheiros.


Ainda que os submarinos autónomos e as embarcações de superfície para monitorizar o mar aberto possam passar de protótipos a produtos, à semelhança do que aconteceu com o ORCA, persiste um desafio tecnológico: “a autonomia total do veículo”.


“O veículo ter capacidade de decidir face ao que está a acontecer no seu ecossistema será sempre um desafio. Neste momento estamos num nível de tomada de decisão intermédio. O veículo deteta e avisa, mas não decide por si. O próximo passo é alertar através de sinais sonoros, luminosos ou, no limite, até parar, e a seguir é a tomada de decisão total”, referiu.


A par dos desafios tecnológicos, persistem também desafios ao nível da legislação, que ainda contém “vazios”, destacou Tiago Rebelo, lembrando que ainda não existe uma normativa europeia e que a nível nacional a mesma está dependente das autoridades marítimas e portuárias.


“Ainda existe esta insuficiência de conhecimento na qual é preciso trabalhar”, referiu.


Depois da caracterização do solo marítimo das águas de Leixões, o veículo 100% elétrico vai monitorizar as águas do rio Douro, entre o Porto e Barca d’Alva, numa colaboração com a Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL).


 


SPYC // JAP


Lusa/Fim


 

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